Ouça um bom conselho

É a sina dos que chegam ao poder. Na primeira noite em palácio, passam a dormir com o inimigo. Atraem aos lençóis do poder os promíscuos de sempre e esquecem os velhos e sinceros parceiros.

Na Granja do Torto, o presidente Lula levanta da cama, vislumbra a bela paisagem do cerrado e exclama:

– Que noite maravilhosa! Hoje estou tão feliz que vou até conceder uma audiência para o ministro da Pesca.

Ele sai do quarto e encontra um segurança no corredor:

– Bom dia, tenente! Você está com muito boa aparência. E suas botas estão brilhando.

– Obrigado, presidente! O senhor também está muito bem… mas parece que se levantou do lado errado da cama, não?

Lula não gostou nada do comentário, mas continuou.

Mais adiante, ele encontra outro segurança.

– Bom dia, capitão! Você parece muito bem! E sua farda está impecável. Parabéns!

– Obrigado, presidente! O senhor também está com bom aspecto.

Pena que hoje o senhor se levantou do lado errado da cama…

Lula ficou furioso, mas seguiu o seu caminho.

Todos os funcionários e seguranças que encontrava e cumprimentava respondiam a mesma coisa.

Assim, quando encontrou o comandante da guarda presidencial, Lula já estava irritadíssimo. E resolveu tirar a história a limpo.

– Bom dia, coronel! Por favor, seja sincero: eu pareço ter levantado

do lado errado da cama?

– Sim, presidente…

– E posso saber por quê?

– É que o senhor calçou os chinelos do Roberto Jefferson, presidente!

vvv

Se na alvorada do mandato Luiz Inácio Lula da Silva houvesse escutado os companheiros do peito, o andor presidencial não estaria sendo carregado pelos vendilhões do templo, nem mesmo percorrendo este vale de lágrimas. Um dos velhos amigos a quem Lula se fez de surdo – de ouvidos moucos, diria o ilustre letrado -, foi Chico Buarque de Holanda. Olho no olho azul do poeta, Lula ouviu de Chico:

– Companheiro, você precisa criar o ministério do Vai Dar M(#).

Estamos lembrados: o ministério do Vai Dar M(#) seria um gabinete ocupado por uma só pessoa, com a incumbência de aconselhar com antecedência o chefe de Estado, sempre que uma importante decisão estivesse prestes a ser sacramentada.

Digamos que o ministério do Vai Dar M(#) coubesse ao próprio Chico Buarque de Holanda, cuja lealdade está acima de qualquer canto de sereia.

– Companheiro Chico Buarque, a história se repete?

– Quando a história se repete é como farsa, ou então pode dar M(#).

– A história do Collor não pode se repetir, nem a história do PC Faria, muito menos a história do Serjão, que comandava os cofres do FHC. Eis a questão: nosso companheiro Delúbio Santos é quem toma conta da nossa grana, um dos mais gordos cofres partidários do País, modéstia à parte. Coisa em torno de R$ 48,1 milhões ao ano. No poder, nosso partido aumentou em mais de 700% a arrecadação entre filiados, com cerca de 800 mil nomeações. Além da ampliação do número de militantes, as contribuições proporcionais de parlamentares, ministros e dos cargos comissionados também aumentam esse volume. Cada filiado ao partido doa de 5% a 20% do que ganha. Noves fora o Fundo Partidário, contribuições de empresas e outros trocados. É grana que não acaba mais, tudo na conta do companheiro Delúbio Santos… que nesse momento está na sala ao lado organizando nossa base aliada. Chico Buarque de Holanda, esta é a minha angústia: isso vai dar M(#)?

– Ouça um bom conselho / Que eu lhe dou de graça / Inútil dormir que a dor não passa / Espere sentado / Ou você se cansa / Está provado, quem espera nunca alcança.

Venha, meu amigo / Deixe esse regaço / Brinque com meu fogo / Venha se queimar / Faça como eu digo / Faça como eu faço / Aja duas vezes antes de pensar.

Corro atrás do tempo / Vim de não sei onde / Devagar é que não se vai longe / Eu semeio o vento / Na minha cidade / Vou pra rua e bebo a tempestade.

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