Os que se foram

Sábado pela manhã, quando da morte de Bussunda, garrei cá a imaginar: quem se foi antes, Bussunda ou o Fenômeno? E botei no papel esta pergunta cuja resposta só teria na tarde de domingo.

Cláudio Besserman Vianna morreu vítima de um infarto, em Munique. Era um craque do humor. Soube da morte de Bussunda pelo blog do cartunista Solda, onde ele pedia 10 minutos de silêncio: ?O humorista Bussunda, do Casseta & Planeta, morre aos 43 anos na Alemanha. Essa Copa tá ficando sem graça? se lamentou Luiz Antônio Solda.

Fazendo um retrospecto, na verdade essa Copa já tinha dado indícios de falta de graça com o falecimento de Fiori Gigliotti, o narrador esportivo que descrevia pelas ondas do rádio o que sonhávamos na infância e adolescência. Era um craque do rádio.

O cidadão Ronaldo Nazário está vivo e bem vivo, graças a Deus, mas o Fenômeno parece ter desaparecido em algum lugar da galáxia, vítima de alguma moléstia desconhecida na alma. O que é uma grande tristeza para o universo do futebol. Tanto quanto o sumiço de Bussunda sumiu com o riso, dos tantos personagens que ele representava, e deixou apenas siso na cara de todos os palhaços do Brasil, porque ?os palhaços também morrem? escreveu o escritor José Roberto Torero: ?Bussunda era um palhaço. No melhor dos sentidos. Todas as mortes são tristes, mas, não sei direito por qual motivo, para mim a morte de um palhaço é sempre mais triste. Talvez seja porque neste caso percebemos que uma das nossas únicas armas contra a morte, o humor, no fundo não adianta grande coisa. Talvez nos faça esquecer de sua inevitável chegada, talvez alivie seu peso, mas, no fundo, não resolve nada. Os palhaços também morrem?.

Nelson Matulevicius não era humorista. Era escultor. Entre tantas obras, Nelson ?Barbudo? foi autor do busto de Tancredo Neves que se ergue na Praça Osório, aqui em Curitiba. Copa sem graça, Solda.

Nelson Matulevicius, 74 anos, foi sepultado na sexta-feira, chamado ao céu para fazer companhia ao grande amigo, o escritor Jamil Snege. Disso que ninguém duvide. Era um craque da escultura.

Quando jovem artista, Matulevicius morava sozinho num sótão da Rua XV, com uma só clarabóia para lhe mostrar a luz do dia. Certa madrugada, Jamil Snege subiu à cobertura do velho prédio e pintou os vidros da clarabóia de preto. Matulevicius acordava, via o pretume do céu e voltava a dormir. Acordava, olhava o breu e voltava aos braços de Morfeu.

Então lhe deu fome. Uma fome de três dias e três noites. Clarabóia ainda noite, se vestiu e foi descer as escadas de madeira para comer o sangrento churrasco com maionese no Triângulo, bar que não fechava nunca, ali mesmo no outro lado da rua.

Quando botou o pé no último degrau da escada, a luz do dia lhe deixou quase cego.

E agora, quem vai fazer o busto de Nelson Matulevicius na Boca Maldita?

***

Assim sendo, quem se foi antes: o craque do futebol, o craque do rádio, o craque da escultura, ou o craque do humor?

O que vimos na tarde de domingo de certa forma respondeu o que eu garrei a imaginar na manhã de sábado: Ronaldo Nazário deu o passe para o primeiro gol, mas não ressuscitou o Fenômeno. Saiu do jogo e entrou para as oitavas da história.

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