Até os postes sabiam que o governador Roberto Requião tinha oficiado o casamento, unindo PT e PMDB. Com exceção de um poste na Rua Chile e outro no Batel, coincidentemente postados em frente aos endereços de Gustavo Fruet e Rafael Greca, ambos agarrados num fiapo de esperança, todos os outros postes de Curitiba já sabiam que Angelo Vanhoni seria o noivo.
Onipresentes, só os postes conhecem as almas das ruas e sabem o que se murmura nas esquinas. Do alto, eles observam quem entra e quem sai, quem vai e quem volta, quem sobe e quem cai, quem conspira e quem trai. Unidos por tantos fios, tudo ouvem, tudo vêem, tudo sabem.
Até o poste defronte ao Bar dos Passarinhos sabia, há mais de um ano, que o deputado Rafael Waldomiro Greca de Macedo não seria candidato a prefeito. Velho conhecido, o poste do Bar dos Passarinhos já nos assegurava: “Não há a mínima possibilidade”. E olhe que esse poste sabe das coisas. Volta e meia, o governador Roberto Requião e seus fiéis correligionários nele se acomodam, quando atendem chamadas urgentes no celular.
Na noite de ontem, o poste em frente ao Bar dos Passarinhos nos concedeu uma iluminada entrevista, enquanto sustentava energia elétrica para a Igreja dos Passarinhos, no Bigorrilho, região também conhecida como Bragalândia.
POSTE – Dona Nice Braga é minha velha conhecida. Antes e depois das missas, tenho iluminado os passos dessa simpática senhora. Nelson Comel é meu freguês de luz, como também o Jaime Lerner, por sua vez freguês do restaurante indiano aqui ao lado.
PERGUNTA – Por que os deputados Rafael Greca e Gustavo Fruet sustentaram até o fim um sonho com morte anunciada?
POSTE – Porque não me perguntaram. Eles acreditam em bruxas; mas não acreditam em postes. Bruxas, não se sabe se existem; mas que postes existem, existem.
P – Se Vanhoni e Richa decidirem no segundo turno, quem será o vencedor dessa eletrizante campanha?
POSTE – Eu levo a luz; não levo à luz. Mas todos os postes sabem que a falta de energia de Luiz Inácio Lula da Silva pode deixar Angelo Vanhoni no escuro. Sem contar as diferentes voltagens do próprio PT e conseqüentes choques internos.
P – O prefeito Cassio Taniguchi pode energizar a campanha do Beto Richa?
POSTE – O famigerado Caixa Dois é um fio desencapado para o atual prefeito; mas o PT também tem os seus próprios fios desencapados, de exposição recente.
P – Estrategicamente, até os postes sabem que o governador Roberto Requião pode ter dado um salto no escuro, emprestando energia a um futuro adversário dono de poderosa hidrelétrica.
POSTE – Os postes também sabem da fábula do escorpião e do elefante. Impossibilitado de atravessar o caudaloso rio, o escorpião pediu ajuda ao elefante, jurando que não o morderia pelas costas, no meio da travessia. O paquiderme, de grande memória, sabia que a picada seria insopitável. Mesmo assim, carregou o frágil escorpião nas costas. E, mesmo assim, foi covardemente envenenado. Antes de morrerem abraçados, o elefante ainda perguntou:
– Escorpião, por que nos mataste?
– Sinto muito, é da minha natureza!
P – Assim clarividente, um poste pode perfeitamente substituir um marqueteiro?
POSTE – Também por sua própria natureza, o marqueteiro é insubstituível. O poste é fixo junto à luz; o marqueteiro age na zona de sombra.
P – Quanto ao futuro, o que os postes ainda sabem?
POSTE – O futuro ao subterrâneo pertence. Homens e postes, hoje estamos verticais, amanhã horizontais, quando todos os condutores se estenderão abaixo da superfície.
P – Atualmente, o que te conforta?
POSTE – Cachorros e bêbados. Os cachorros, quando levantam a pata, nos fazem reverência. E os bêbados quando nos abraçam, companheiros na alegria e na tristeza, são interlocutores nas madrugadas.
Até domingo, no poste de sempre.