A guerra, vista pela telinha da tevê ou pela telona do cinema, tem disso: cai bem no almoço com bife, arroz e feijão, ou até mesmo com pipoca e refrigerante. Pela CNN, mais expressivos que os meninos de Bagdá lambuzados de sangue, as traquitanas tecnológicas, o espetáculo dos mísseis riscando os ares e o cogumelo expressionista desenhado acima de um mercado público alhures. Os meninos de Bagdá, ora, são os meninos de Bagdá: segundo analistas internacionais, mais que uma espécie, é uma praga que ainda vai infernizar a vida de netos e bisnetos de W. Bush.
Se os banalizados meninos de Bagdá são agora apenas imagens bem editadas na tevê, é chegada a hora de pelo menos intercedermos pelos passarinhos de Bagdá. Os passarinhos de Bagdá que cruzam o Tigre e o Eufrates, fazendo contraponto com a cidade em chamas. Ao lado da ararinha azul, do mico-leão-dourado, do urso panda e do leão branco, alguém precisa se sensibilizar com os passarinhos de Bagdá, antes que acabem e se transformem em arquivos digitais da CNN.
Lendo e relendo as notícias da guerra, ninguém ainda se reportou aos passarinhos de Bagdá, quanto às espécies ou número de sobreviventes. Não se sabe nem mesmo se comem alpiste ou alguma frutinha exótica do deserto. Para os donos da guerra, o número de passarinhos de Bagdá não importa, assim como não importa o número de meninos de Bagdá.
O que importa são os números do petróleo que exportam: o Iraque tem reservas provadas de 112 bilhões de barris e outros108 bilhões de barris prováveis. Só contando as reservas provadas, daria para 128 anos de fornecimento de produção, a maior duração de reservas do mundo. Um estoque pro Bush babar de inveja: os EUA têm “apenas” a oitava maior reserva do mundo, perdendo até pra Venezuela. Uma reserva que só dá para os próximos 11 anos, no ritmo de produção e consumo dos dias de hoje. Em outras palavras, é muita areia pro caminhãozão americano, rodando no Texas com tanque quase vazio.
Em números ou prospeções, portanto, o Pentágono jamais iria enviar a sétima cavalaria para proteger os passarinhos de Bagdá. E os meninos de Bagdá, então: fuck!
Hoje apenas preocupado com a fome dos meninos do Brasil, o presidente Lula até pode começar a se preocupar também com passarinhos. Não com os passarinhos de Bagdá, uma fauna completamente fora de sua jurisdição, mas, sim, com os passarinhos do Brasil.
Vítimas de hoje são os passarinhos que sobrevoam as reservas da Mesopotâmia. Amanhã, serão os passarinho que fazem ninho nas árvores da Amazônia.
Aqui, igual a Bagdá, também temos nossos meninos voando feitos passarinhos.
Até domingo, com o suplemento O Estadinho, que vai mostrar a cara dos meninos de Bagdá.