Os intocáveis

– O gerente do banco figurava no palanque, ao lado do comandante do Tiro de Guerra, do juiz, do delegado e do prefeito. Hoje, um gerente de banco arrisca ser convidado a limpar bosta dos cavalos da parada.

Não só os gerentes de banco tiveram seus dias de esplendor nas paradas. Os próprios militares eram saudados nas ruas com uma certa inveja pelo uniforme, o garbo e, principalmente, o salário. Eram invejáveis os salários de funcionários federais. Trabalhar na Caixa Econômica Federal, era futuro certo, promessa de casamento com a moça mais bonita da cidade. Rapaz moço que passava em concurso de juiz, bancário ou militar, era o genro que toda a sogra pedia a Deus.

Era uma vez os dias invejáveis do funcionário público federal. Hoje estão "incluídos dentro" da vala comum da sociedade, gente como a gente. Não chegam ao ponto de limpar bosta de cavalo nas paradas de 7 de Setembro. Mas falta pouco, em nome do superávit primário.

Não sei o salário de um funcionário da Polícia Federal, nem mesmo se atende os requisitos do superávit primário. Mais ou menos, muito ou pouco, notável é o quanto a Polícia Federal vem ganhando de prestígio, nos últimos meses. Um prestígio que recupera a velha aura dos funcionários públicos de antanho. Só falta ouvir no pátio da escola o seguinte diálogo:

– Meu pai é senador, dono de consórcio, uma corretora de câmbio e uma loja de importados!

– Grandes coisas…! O meu é da Polícia Federal!

A prisão de Tony Garcia e tantas outras ações da PF – só este ano foram presas, até agosto, 213 pessoas, sendo 32 servidores públicos e 6 policiais federais – estão sendo acompanhadas pela tevê, como se fosse na Chicago dos anos 30s, quando o jovem agente Eliot Ness, com um pequeno time de corajosos e incorruptíveis homens acaba com o reinado de terror e corrupção instaurado por Al Capone, prendendo o gângster sob a acusação de sonegação fiscal.

Tony Garcia nem de longe lembra Robert De Niro. Ele está mais para galã de fotonovela, mas a cena de prisão foi coisa de cinema. Uma comédia mexicana, digamos: o indigitado se esconde numa casa de bonecas e acaba preso no topo de uma árvore, com as calças na mão. Captura tão hilária e ridícula, que o indigitado vai precisar de muitos dudas mendonças para apagar a cena da memória coletiva.

No quesito "popularidade", Tony Garcia conseguiu passar dez pontos na frente da Mirley, a baronesa do sexo, que também deu o ar de sua graça no chão de um camburão. Até semana passada, o "livrinho de cabeceira" da Mirley era objeto de curiosidade pública, tamanha a lista de clientes favoritos. Agora é o "livrinho contábil" de Tony Garcia – nitroglicerina pura, se vazar apelidos, nomes e sobrenomes.

E sabe qual a diferença entre a Mirley e o Tony? – A Mirley fazia, o Tony Garcia!

Os intrépidos agentes da Polícia Federal não estão sendo admirados apenas pelas incursões matinais que lembram os intocáveis de Eliot Ness. Também notável é a criatividade da PF. Com tanto trabalho, do Oiapoque ao Chuí, eles devem ter um departamento só para batizar ações de buscas e capturas. A última ganhou o nome de "Operação Catuaba". Recapitulando, já empreenderam a "Operação Pororoca", "Águia" , "Zaquen", "Zumbi", "Pandora", "Lince", "Planador", "Soro", "Anaconda", "Midas", "Poeira no Asfalto", "Ventania", "Vampiro", "Praga do Egito", Albatroz", "Sucuri", Trânsito Livre", "Farol da Colina", "Matusalém", "Mamoré", "Shogum".

"Fraude" é o nome da operação que prendeu Tony Garcia, que deve ter algum erro de grafia. O certo seria "Operação Freud", sabido que o galã de fotonovela começou sua carreira deitando as vítimas num divã.

Até quarta-feira; e a Polícia Federal só não deflagrou ainda a chamada "Operação Gutemberg", homenagem dos criativos da PF aos homens de imprensa. Antes que isso aconteça, que fique o registro: esta Redação nunca viu Tony Garcia mais gordo.

Grupos de WhatsApp da Tribuna
Receba Notícias no seu WhatsApp!
Receba as notícias do seu bairro e do seu time pelo WhatsApp.
Participe dos Grupos da Tribuna