Pesquisas oficiais indicam que os eleitores indecisos vão eleger o governador do Paraná. E não são poucos os hesitantes. Bem mais do que apregoam os matemágicos dos institutos de pesquisas, que esquecem de levar em conta uma outra categoria de eleitores: os cépticos.
Na verdade, a metodologia das pesquisas eleitorais registradas no TRE falha porque computa os indecisos genericamente, com a surrada fórmula: Fulano, 45%. Beltrano, 45%. Brancos e nulos, 2%. Indecisos, 3%.
O correto seria a soma das intenções de voto com uma escalação diversa: Fulano, 30%. Beltrano, 30%. Brancos e nulos, 10%. Indecisos, 5%. Cépticos, 25%.
Contingente eleitoral muito mais vasto e impreciso que os indecisos, os cépticos são aqueles que vão às urnas sem uma motivação indubitável. Céptico – ou cético – é o cidadão que duvida de tudo; o descrente.
Cepticismo é uma corrente filosófica que tomou conta do inconsciente político do povo brasileiro. O dicionário assim define o cepticismo: ?Atitude ou doutrina segundo a qual o homem não pode chegar a qualquer conhecimento indubitável, quer nos domínios das verdades de ordem geral, quer no de algum determinado domínio do conhecimento?.
Na antiguidade, era a designação da doutrina do filósofo grego Pirro. Daí o céptico julga que, ganhe quem ganhar, cabe ao eleito uma vitória de Pirro. Ou, ao grosso modo – e bota grosso nisso -?que vença o pior!?.
Quem vai às urnas com uma idéia fixa, com um candidato na ponta da língua e na estampa da camiseta, são os indubitáveis. Estes não têm dúvidas; nem remorsos. Pelos estatutos da sobrevivência, os indubitáveis são eleitores que depositam seus votos nas urnas como se fossem depositar um cheque pré-datado. Dividem-se esses incontestáveis em várias categorias: C1, C2, C3, C4. Quanto aos que não se encontram nesta escala de valores, podemos enquadrar nas divisões dos ludibriados.
Aos cépticos – isso as pesquisas também não mostram – devemos somar os decepcionados e arrependidos. E se arrependimento matasse, brasileiro não teria título eleitoral. Teria atestado de óbito.
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Exemplo de um eleitor céptico é o escultor e pintor Rogério Dias. É céptico na vida, na política e nas artes: pinta passarinhos tão belos que até o Criador duvida.
Certa vez, nós estávamos bem postos, na mesa da diretoria do Bar Kappelle, quando um rato correu junto ao balcão e se acomodou num apoio da parede, junto ao braço do pintor. Rogério Dias olhou para mim, outra vez mirou o rato, e perguntou com um olhar fixo à frente:
– Eu não tenho bem certeza se sou um homem ou um rato, mas isso aqui é um rato?
– É um rato, Rogério!
– Tem certeza que é um rato, ou estaremos vendo ratos?
– Não estamos vendo ratos! É um rato!
– Ótimo! Então vamos continuar bebendo! E um brinde ao nosso rato!
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Céptico é o cidadão que já não sabe se certos políticos são homens ou ratos.
Indeciso é o não decidido; o duvidoso, hesitante, irresoluto. Pelo simples fato da eleição não estar decidida, cabe a palavra final ao indeciso.
Para o eleitor do sexo masculino, machista por natureza, é próprio das mulheres a falta de espírito de decisão, a capacidade de decidir ou resolver de pronto.
No trânsito, por exemplo, uma colisão numa via de mão dupla:
– Seu guarda, a madame fez sinal que ia entrar à esquerda. Acelerei, também desviei à esquerda, e fui com tudo pra cima do carro da madame.
– Mas a senhora não estava sinalizando que ia entrar à esquerda?
– Justamente! É inacreditável, mas ela entrou de fato à esquerda! Quem iria imaginar? O normal seria a madame sinalizar à esquerda, e entrar à direita!
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A política tornou-se via de mão única em direção ao poder. Esquerda ou direita, as regras básicas da circulação ideológica já não fazem mais sentido. Resta aos cépticos, portanto, entrar na contramão.