Sabe aqueles dias quando estamos naqueles dias, quando nada nos inspira? Naqueles dias o que nos salva é o velho e bom calendário de efemérides. Se o assunto nos falta, o que não falta é data a ser lembrada. O calendário é batata. Aliás, quando seria o Dia do Batateiro?
Hoje é o Dia do Gerente de Banco. Domingo passado foi o Dia das Mães e esta coluna não registrou uma linha em homenagem à rainha do lar. Lapso lamentável. Mas hoje o Dia do Gerente de Banco não nos escapa: em homenagem a esses bravos profissionais dos juros e correções monetárias, quero trazer à memória o falecido Sérgio Mercer, que não era gerente de banco, era publicitário. De gerente, Sérgio Mercer era um grande ?gerenciador de conversas?, que Jaime Lerner diz ?afinador de conversas?. Afinador de conversas é aquele circunstante que não deixa deteriorar a qualidade da conversação. O maestro da mesa. Quando a conversa desafina, o ?afinador? toma a batuta, traça novos rumos, bota pilha nova no assunto. Portanto, as tertúlias etílicas do tibagiano eram intermináveis. Ernani Buchmann é outro admirável ?afinador de conversas?. Formou-se com o mestre, depois de incontáveis horas de aprendizado, onde também testemunhou várias composições musicais de Sérgio Mercer, acompanhadas de um ?bandoneón imaginário?.
Um desses sambas é em homenagem aos gerentes de banco, que vamos interpretar aqui, nesta data querida. A música vem do ?bandoneón imaginário? e a letra é esta: Seu gerente, daqui não saio / Se não fizer o meu papagaio / BIS / Vai num banco aqui! / Vai num banco ali! / Minha vida não tem remédio / O gerente quer saldo médio. (Entra um ?pistão imaginário?) Parará, parará… Parará, parará… (E segue o baile.)
Sérgio Mercer era publicitário. Ernani Buchmann ainda é: acaba de anunciar a mais nova agência de publicidade de Curitiba, a Getz Comunicação. Fusão da Get, Z e Open Salup. O que seria dos publicitários e jornalistas se não fosse o calendário de efemérides? No Dia das Mães, publicistas faturaram uns trocados para pagar os impostos e jornalistas usaram a mesma pauta de anos e anos atrás. Porque pauta para o Dia das Mães é batata (quando mesmo seria o Dia do Batateiro?): preços de mimos e almoço em Santa Felicidade. Ernani, o garçom ex-gordo do Madalosso, não suporta mais dar entrevistas no Dia das Mães. Ernani não tem mais o que dizer e os repórteres sempre têm mais o que perguntar.
Convenhamos, com o calendário de efemérides – atualizado, porque quase todo dia aparece um novo dia disso, dia daquilo -, é possível fazer jornal ou televisão durante anos e anos seguidos, sem nenhum repórter na redação. Basta renomear e modernizar as pautas dos anos anteriores. Jornalistas ou publicitários, somos todos escravos da pauta.
O tempo passa, o tempo voa, observem o noticiário global: se não fosse o calendário de efemérides, doutor Roberto Marinho teria morrido falido, muito além do atual passivo. No calendário de efemérides, se estou ?aggiornato?, não consta o Dia do Pauteiro. Pauteiro é o profissional de imprensa que idealiza a reportagem. Se hoje não tem nenhuma matéria sobre o Dia do Gerente de Banco, culpa do pauteiro. Em compensação, quando temos uma informação de crucial valia, culpa do pauteiro. Elas e eles merecem uma especial data, uma especial menção. Pauteiro sofre. Tinha uma época, quando as televisões não eram em rede nacional, que os pauteiros das emissoras locais tinham que dar ?nó em pingo d´água? para completar os telejornais de domingo à noite – bons tempos aqueles, com notícias locais aos domingos -, e os macaquinhos do Passeio Público não saíam da telinha. E dá-lhe macaco comendo pipoca e soldado namorando as personagens de Dalton Trevisan.
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Nesta sexta-feira, Mário Celso Petraglia e a diretoria do Atlético reuniram a imprensa na Kyocera Arena para uma conturbada entrevista coletiva. Foi o Dia do Petraglia. Aos gritos, culpou os jornalista pela situação do time.
Só não nos chamou de filhos da pauta.