Olho por olho, Dante por Dante

De todas as bobagens que já disseram contra ou a favor do livre comércio de armas no Brasil, a declaração de voto de Fagner é de longe a coisa mais inteligente que ouvi para justificar o ?não? no referendo do dia 23: ?Onde tem muito artista falando, já se sabe que não é coisa boa?, argumentou o cantor cearense no lançamento de uma coletânea de CDs. Depois explicou melhor a Mônica Bergamo, da ?Folha?, sua bronca com a classe: ?É tudo um bando de Maria-vai-com-as-outras. Ficaram gritando ?Lula-lá!?, ?Lula-lá!? e, depois que o Lula fez essa cagada toda, não aparece quase ninguém para comentar.? Dói concordar! A essa altura da vida admitir que o Fagner está certo, francamente, era só o que me faltava.

A propaganda do ?sim? lembra o clima de campanha nas eleições que Lula perdeu com a ajuda gracinha dos artistas. Pegava bem na época dizer sim a Luiz Inácio da Silva, tanto quanto hoje é mais simpático fazer campanha pelo desarmamento da população. Artista ? salvo Marília Pêra, Regina Duarte e Hebe Camargo ? sempre votou instintivamente em coisas bacaninhas. Certos políticos e certas políticas fazem muito bem à imagem das celebridades, enganam-se os que pensam na mão invertida ? e única ? dessa relação. Desculpem a grosseria, mas apoio que artista dá por amor é outro! Sem querer generalizar ? há de fato meia dúzia de três ou quatro bem intencionados incorrigíveis capitaneados por Fernanda Montenegro ?, essa raça é capaz de fazer caridade para sair na ?Caras?. Gente que vai a evento beneficente para aparecer em revista, entende? Um horror! Artista não vai a lugar nenhum, comício ou baile de debutantes, a troco de nada.

Uma vez me contaram, não consegui confirmar, que alguns incluíam velórios nos pacotes de visitas ao interior para inauguração de lojas, aniversário da filha do prefeito, carnaval fora de época… Imagina a culpa dessa turma, e o quanto apoiar o Lula ou a campanha do desarmamento ameniza tudo ? tudo mesmo ? que se faz por dinheiro nesse meio. Cobram por abraço, foto ou aperto de mão. A valsa está valendo uma fortuna. Campanha contra o câncer de mama não tem preço. Ah, se todos fossem iguais ao Marco Nanini, mas não são, não são mesmo. Não à toa não se vê mais um Chico Buarque bancando o artista de bobeira por aí. Deve morrer de vergonha!

Como disse Fagner em seu melhor momento desde o sucesso de ?As Velas do Mucuripe?, ?onde tem muito artista falando, já se sabe que não é coisa boa?. Viu-se nas campanhas do Lula e não vai dar outra no referendo das armas. Ninguém agüenta mais esta gente vestida de branco, dizendo sim, que é pela paz, sem medo de ser feliz, a esperança vai vencer o medo, bla-bla-blá, bla-bla-blá, bla-bla-blá… É por isso que vai dar ?não? no dia 23. Eu sinto muito!

(Tutty Vasques)

PELO SIM, PELO NÃO,
OS ARGUMENTOS DE
ZUENIR VENTURA

Teste de tolerância

Nesta altura, depois de ouvir tantos argumentos a favor do ?sim? e do ?não?, acho que a grande maioria dos eleitores já tomou posição e só aceita as opiniões que coincidem com as suas. Elas já viraram convicções, ou seja, certezas irremovíveis. Não sei se há alguém ainda querendo mudar de idéia. Até indecisos eu conheço firmes em sua indecisão. Um chegou a me dizer: ?Voto nulo porque não abro mão de minha incerteza.?

Curioso referendo esse que rompeu fronteiras políticas e ideológicas, separando quem sempre esteve do mesmo lado e unindo adversários como FHC, Lula e José Serra. Nunca pensei que uma questão sobre a qual ainda existe tanto desconhecimento e confusão pudesse despertar tanta paixão. Por ter declarado meu voto a favor do ?sim?, recebi e-mails contestando o que não escrevera e me atribuindo intenções que não tive, além de mensagens tão ofensivas que fiquei imaginando essas pessoas com uma arma na mão. Em compensação, chegaram-me contra-argumentos serenos e inteligentes que, se não mudaram minhas convicções, serviram para aumentar meu caderninho de admirações.

Por isso, concluí que o referendo é um teste de tolerância para saber quem já aprendeu a lição básica da democracia, que é suportar a opinião contrária e saber conviver com o oposto. Nada mais fácil do que concordar com quem concorda com a gente. Parto do princípio de que, com exceção dos que estão nisso por interesse material, como a bancada da bala e os lobistas das fábricas de armamento, os adeptos do ?não? são pessoas tão bem-intencionadas quanto eu; apenas discordamos.

Voto no ?sim? porque tenho horror às armas. Delas quero distância. Considero a indústria bélica a mãe de todas as guerras, não por maldade, mas pela lógica do próprio negócio, que precisa de conflitos para vender e ter lucro e, em conseqüência, produzir mortes. Proibido proibir é um velho mito de 1968. Como não proibir o que atenta contra a civilidade e a vida? Por exemplo: excesso de velocidade, cães ferozes soltos nas ruas, dirigir embriagado.

Não tenho ilusões de que a vitória do ?sim? vá acabar com a criminalidade ? e nem aumentá-la, como alegam os defensores do ?não?. Concordo que é indispensável desarmar os bandidos e, qualquer que seja o resultado, espero que se tenha pela causa o mesmo empenho que estamos tendo agora. A proibição, porém, já será um passo, ainda que pequeno, para mudar alguma coisa nessa hedionda cultura da violência que tem como símbolo e fetiche o revólver, e que nos faz liderar uma dessas estatísticas que nos enchem de vergonha. Somos um dos campeões do mundo em mortes por armas de fogo.

PELO SIM, PELO NÃO,
OS ARGUMENTOS DE
LUCIO CASTELO BRANCO

Sou fundamentalmente não. Esse referendo não é uma coisa séria. É uma irracionalidade. A pergunta é idiota. Além do absurdo que é o gasto que o governo está tendo. O dinheiro poderia ser utilizado no combate efetivo ao crime.

A violência é um fenômeno social total. Só existe sociedade porque há violência. O ser humano é ontologicamente violento. Mas é preciso deixar claro que nem toda violência é crime. A segurança é uma questão de educação. Está longe do fato de afastar as armas da sociedade. E os acidentes a que se refere quem é a favor do desarmamento e vai votar pelo fim do comércio de armas de fogo acontecem por negligência.

Esse desarmamento da sociedade está simbolicamente ligado ao desarmamento das Forças Armadas. E que Estado é esse que não está armado? Basta pensar em países como China, Índia ou Paquistão. Quem pensa em atacá-los, pensa duas vezes. A mesma lógica é utilizada para o indivíduo.

Não quero fazer uma contabilidade cínica, mas o álcool e o cigarro matam mais que as armas de fogo…

Lúcio Castelo Branco é sociólogo

Grupos de WhatsApp da Tribuna
Receba Notícias no seu WhatsApp!
Receba as notícias do seu bairro e do seu time pelo WhatsApp.
Participe dos Grupos da Tribuna