O voto Nulowski

?Não vote nulo, vote Nulowski.? Com este slogan, o cientista político Tadeusz Nulowski foi candidato a deputado nos anos da ditadura, para comprovar a sua tese de que o voto nulo é um legítimo instrumento de protesto. Abertas as urnas, Nulowski não recebeu um voto válido sequer, mas sentiu-se gratificado: ?Meus eleitores captaram a mensagem e sufragaram nulo!? – afirma o cientista política na seguinte entrevista exclusiva.

Pergunta – Professor, desde quando o senhor vem pregando o voto nulo?

Nulowski – A tese vem de pai para filho, muito antes do primeiro Nulowski se estabelecer no Brasil. Boleslaw Nulowski fazia parte do grupo de colonos da Europa Central que partiu do porto de Bremen, na Confederação Alemã, com escalas em Antuérpia, na Bélgica, e no Rio de Janeiro, para serem assentados na Colônia Príncipe Dom Pedro, nas proximidades de Brusque, Santa Catarina. Chegaram em 1869, a bordo do navio Victória, conduzidos pelo comandante Redlisch ao porto de Itajaí.

Antes de embarcar, os colonos estavam divididos: parte do grupo queria que o navio zarpassse para o porto de Nova York, outra parte insistia em rumar para o porto de Itajaí. Com os emigrantes divididos, o comandante Redlisch retirou-se ao camarote para lavar as mãos, deixando um recado a todos os passageiros: ?Vocês é que decidem o destino!?. Após dois dias de discussões no porto de Bremen, sem que os viajantes chegassem a um destino comum, o comandante Redlisch resolveu então organizar uma eleição a bordo: ?Quem for a favor de rumar para o porto de Nova York, levanta a enxada. Quem for a favor de partir para o porto de Itajaí, levanta a foice!?.

Boleslaw Nulowski levantou o guarda-chuva e fez discurso em favor do voto nulo. Foi uma votação apertada. Com a diferença de apenas um voto, os adeptos da América do Sul venceram. O comandante Redlisch embicou o Victória para o Equador, e adeus Nova York.

Vieram parar na colônia germânica de Brusque, onde nasceu Izabella Kokot, em 12 de outubro de 1869, a primeira polaquinha nascida no Brasil. Nosso patriarca ajudou no parto.

Pergunta – De Santa Catarina, onde não se acertaram com os alemães de Brusque, todos os polacos que chegaram com o navio Victória partiram para o Paraná?

Nulowski – Foi uma sofrida travessia. Subiram a Serra do Mar, cruzaram as nascentes do Rio Iguaçu, chegaram a Curitiba em carroças e amarraram os cavalos na porta de Adolpho Lamenha Lins, o presidente da Província do Paraná daquela época.

Reunidos na Praça Tiradentes, os imigrantes receberam de Lamenha Lins duas opções para a compra de terras: uma grande gleba no Abranches, ou outra área um pouco menor, que hoje corresponde a todo o bairro chique do Batel. Novamente os colonos se dividiram e repetiu-se o referendo realizado em Bremen: ?Quem for a favor de morar no Abranches, levanta a enxada. Quem for a favor de morar no Batel, levanta a foice!?.

Ganharam as enxadas do Abranches, por apenas um voto. Boleslaw Nulowski pegou o seu guarda-chuva do voto nulo e não quis saber do Batel, muito menos do Abranches: foi se juntar aos anarquistas italianos que já estavam arrumando as tralhas, em Gênova, para fundar a Colônia Cecília, a primeira colônia anarquista do Brasil. Italianos e polacos sempre se deram muito bem. O velho Nulowski se deu melhor ainda com os anarquistas de Palmeira, onde o voto nulo era questão de honra.

Pergunta – O atual Congresso é o mais corrupto da história. Mais de uma centena de parlamentares estão sob investigação do Ministério Público, ou respondem a processo criminal. Os sanguessugas tomaram conta de Brasília. Mesmo assim, nas eleições de outubro o senhor cumpre a tradição de família e vota nulo?

Nulowski – Perfeitamente. Ou não nos chamamos Nulowski, de pai para filho desde 1772, quando os sanguessugas da Rússia e da Alemanha pela primeira vez invadiram a Polônia.

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