Nosso querido amigo Paulo Roberto Popp é engenheiro agrônomo; mas bem podia ser diplomata, tantos são os idiomas que domina e tantos foram os giros que fez pelo mundo como consultor de projetos para empresas agrícolas que vêm se instalar no Brasil. Quando estudante na Itália, aprendeu a gostar da pizza Margherita e do glorioso time do Napoli, agora morto. Assim como os napolitanos, Popp pranteia a falência da Squadra Partenopea.

“Pelo pouco tempo que morei na região de Nápoles tive a oportunidade de conhecer melhor suas entranhas, seu povo e seu único e encantador modo de viver. Ali fiz bons amigos, muitos abriram suas portas, seus corações e, é claro, suas fartas e deliciosas mesas. Italianos e brasileiros; temos as fortes marcas do latinismo em comum, a paixão e as emoções espontâneas. Afeição similar pelo nosso esporte favorito: o futebol por aqui, o calcio por lá – nunca investiguei por que denominação tão estranha. O napolitano em particular sempre extravasa um pouco mais esses sentimentos em comparação a outros italianos. Igual a nós brasileiros e nossas diferenças regionalistas.

Nesta semana, acompanhei a falência do time do Napoli em noticiários brasileiros e italianos. As páginas cor-de-rosa da Gazzetta dello Sport foram substituídas por uma tela de vídeo cor-de-rosa que, mesmo sem o charme de dobrá-las em baixo do braço, apresenta a informação de bate-pronto, o sem-pulo com o qual Careca encantou a torcida napolitana em várias ocasiões.

Apesar de ter maior favoritismo por outro time italiano, sempre nutri uma grande simpatia pelo Napoli, também conhecido pela elegante denominação de Squadra Partenopea. Naqueles momentos longe de casa, não poderia deixar de me contagiar pelo ambiente. Falar do time era assunto obrigatório nos longos almoços de domingo entre berinjelas, polvos, vinhos adocicados e cerejas devidamente preparadas pela dona Erminia. Aquela gente mostrava muito orgulho pelo seu time, uma gente apaixonada e entusiasta. Uma paixão que colocava de lado qualquer diferença política, outro tema tão adorado por nós latinos. Gritavam Forza, Napoli!, para um time que teve Maradona como maior craque e que, como a equipe, também vive uma amarga decadência. Sem esquecer que ali jogaram o Careca, o Alemão e o Dirceu, o nosso garoto dos pinheirais. Não passei impune a tudo isso, fiquei triste também, cedi ao meu sangue latino e tento imaginar o cenário que se formou por aquelas bandas. Uma atmosfera de desespero e incompreensão deve pairar sobre todo o Golfo. De Massa Lubrense a Pozzuoli passando por Castellamare de Stabia, Capri, Meta di Sorrento, terra do amigo Gegê Lorenzano, que deve estar aos prantos, entre a raiva e a tristeza, e a quem não encontrarei palavras para consolar. E, é claro, em Napule (assim se escreve no dialeto local), por todas as ruas, ruelas, praças e lungomari. Em Spacca Napule, Mergellina e Piazza Garibaldi, onde se encontra o Café Messico, local para se tomar um dos melhores cafés do planeta.

É aquele povo tão característico que normalmente se expressa no dialeto local, recheado de duplas consoantes com influência espanhola, numa mistura que resultou em um acento musicalmente forte. Que ainda usa as mãos para se comunicar com uma habilidade única. Falar com as mãos, se pudessem, verteriam lágrimas pelos dedos. Tomam seu café corto, aquele que mal sai da xícara, resmungam, lamentam, choram, invocam seu glorioso passado. Em seus encontros nas ruas e cafés perguntam-se, sempre juntando os dedos para cima ou sacudindo as mãos comprimidas como se orassem. O gesto é um só: E mmo? Poucas letras que se traduzem em: e agora, o que faremos?

O Napoli não há de morrer, o povo e a cidade não merecem. E San Genaro não há de faltar ainda esta vez e que ele opere mais um miracolo. Neste verão de 2004, nem o mediterrâneo sol que lá brilha – este sim, infalível – pode acalentar os tifosi entristecidos. Um fato tão sentido e marcado pelos napolitanos que é até mesmo difícil de se comparar com a avassaladora erupção do Vesúvio, que destruiu Pompéia em 79 d.C. Afinal, naqueles idos não existia o calcio!” (Paulo Roberto Popp)

Até domingo; e forza, Paraná Clube!

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