?A repetição, sobretudo nos últimos livros, chega às raias de um canhestro paroxismo. À medida que o tempo foi passando, Dalton Trevisan foi se tornando um escritor menor, literal e figurativamente.?

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A declaração é do escritor Wilson Bueno e, por incrível que pareça, o autor de Amar-Te a Ti nem Sei se com Carícias falou e disse no jornal e não caiu o céu azul de Curitiba. O barulho que se ouviu, após a entrevista de Bueno, foi o das rotativas do jornal, de uma pinha despencando de um pinheiro na Praça Tiradentes.

Wilson Bueno disse mais, sobre o novo livro do vampiro de Curitiba: ?Rita Ritinha Ritona é uma bobagem, dada a esterilidade da repetição. Tirando alguns momentos extremamente melodramáticos, dos últimos livros eu salvaria Pico na veia?.

Outro parágrafo, e esse céu azul de maio continua o mesmo. Além das rotativas, o barulho que se ouve agora é o de um pássaro debulhando a pinha e Wilson Bueno debulhando Dalton: ?Reduzido às atuais circunstâncias, fosse eu Dalton Trevisan, em benefício de seus próprios leitores, já teria pendurado as chuteiras. João Cabral de Melo Neto é um grande exemplo de quem soube encerrar a carreira. Está na hora de o Dalton Trevisan escrever um livro de memórias. É o artista supremo de seus quatro primeiros livros?.

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Silêncio… uma nova polêmica acaba de nascer! – parodiando a letra do compositor Lápis. Se a internet fizesse o barulho das rotativas, se poderia ouvir o publicitário e escritor Almir Feijó fazendo eco em seu blog na internet: ?Dalton Trevisan é a maior conquista brasileira. Ponto. É um escritor genial, pelo menos foi até seu quinto ou sexto livro. Isso é pouco? Não, é muito, muitíssimo. Ponto. Dalton Trevisan não é mais o mesmo. Ponto. Sua obra, monotemática, saiu atrás de uma variação estética – a redução das histórias à economia do hai-kai – e perdeu o brilho. Dalton tornou-se chato, repetitivo. Ponto. É preciso coragem, mas também um sentimento de dor, desapontamento, para concordar com Wilson Bueno quando ele chama a obra de Dalton de ?samba de uma nota só?. Leminski, ainda mais cruel, a dizia ?daltônica?.

Silêncio! Em Curitiba, quando o vampiro passa, sua gente se cala. E quando Dalton Trevisan lança um novo livro, não se ouve zumbido. Ele merece. Portanto, causa espanto a entrevista de Wilson Bueno. O céu azul de Curitiba não caiu e, além de Almir Feijó, ninguém repercutiu.

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Quem é mordido de vampiro, vampiro é. Curitiba caiu nas garras do vampiro e por isso esse silêncio, porque ?é preciso coragem, mas também um sentimento de dor, desapontamento, para concordar com Wilson Bueno?.

Ai de ti, Wilson Bueno, porque a vingança do vampiro lhe será cruel. Ou o vampiro não é mais aquele.

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Deonísio da Silva também é escritor. É vampirólogo, fez entrevista com o vampiro, é amigo do vampiro. Neste sábado, dia 21, no Armazém São Miguel, Curitiba e o Brasil meridional vão lançar o nome de Deonísio da Silva à Academia Brasileira de Letras.

Deonísio da Silva desconhece o lançamento de seu nome à ABL, mas seus amigos de Curitiba lhe preparam uma bela surpresa. Ernani Buchmann, Manoel Carlos Karam e outros escritores do Sul farão os discursos de lançamento e, durante um concorrido ágape, será passado o chapéu para a compra do fardão. O jornalista e escritor Horácio Braun, blumenauense fundador da Oktoberfest, vai adquirir a indumentária em Santa Catarina: o tecido virá de Brusque, roupa íntima de Ilhota, enxoval e aviamentos de Blumenau, rendas de Florianópolis, o chapéu será confeccionado em Pomerode (no clássico estilo pomerano), sapatos de São João Batista, meias de Gaspar e um lencinho branco especialmente doado pela Prefeitura de Siderópolis, terra natal de Deonísio da Silva.

O lançamento do nome de Deonísio vai acontecer no Armazém São Miguel (Rua Lamenha Lins, 1540, esquina com Almirante Gonçalves), em Curitiba, num almoço em homenagem a Horácio Braun, que traz de Blumenau 100 litros de seu próprio chope: o Chope do Horácio.

Quando Wilson Bueno adentrar no Armazém São Miguel, um minuto de silêncio. Eis que chega o homem que ousou desafiar o vampiro.