Pois é. A travessia da vida é uma sucessão de pedágios que estamos destinados a pagar. Alguns pagamos com o maior prazer, aqueles de nosso livre arbítrio. Outros fazem parte dos tributos que os outros nos destinam. Destes, agora teremos mais alguns: foi liberada cobrança de pedágio nas rodovias federais que ligam Curitiba a São Paulo, Lages e Florianópolis. Sendo que imposto merece cara feia, este será o nosso último risonho e franco verão.

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Depois de um longo e tenebroso inverno nas barras dos tribunais, o próximo verão será anunciado junto com o edital concedendo à iniciativa privada a concessão de um caminho do mar que nos restava de graça. Com destino aos mares do sul, serão 382 quilômetros com cinco praças de pedágios. Isso vai nos custar algumas caipirinhas a mais, ou a menos, dependendo do ânimo de cada um.

Dom Quixote de los Pedágios, o governador Roberto Requião deve estar desanimado. Justo ele que empenhou seu primeiro governo na duplicação do trecho de Curitiba até a divisa com Santa Catarina. Trajeto para o céu ou para o inferno, era a Rodovia da Morte.

Para os catarinenses e paranaenses que fizeram daquele percurso um cordão umbilical a unir os dois estados, o caminho nos traz à memória alguns capítulos de vida.

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?A chuva é como a morte; necessária, imprescindível, mas ninguém se acostuma com ela?. Autor da frase, o escritor e crítico literário paranaense Temístocles Linhares (1905-1993) era um viajante acostumado com o caminho, nas costumeiras férias em Santa Catarina. Em suas memórias – Diário de um crítico, coleção Um Brasil Diferente, edição da imprensa oficial do estado -, o professor Temístocles assim se lamentava no dia 19 de julho de 1957: ?Continua chovendo torrencialmente. Fazia tempo que não via tanta chuva. Vim à praia para descansar e fazer a vontade da família e agora a nossa preocupação maior é ver o tempo melhorar para poder regressar?.

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No dia seguinte, o escritor partiu de Camboriú e tomou o rumo de Curitiba. A chuva deixava o caminho intransitável. Encalharam mais de uma vez, sendo preciso tirar o carro do atoleiro à custa de uma junta de bois: ?Quando haveríamos de imaginar que uma junta de bois nos livraria de ter de pousar na estrada e na lama! Grandes e generosos animais a cuja força tanto devemos! Mais uma prova de nossa subordinação à natureza, nos seus elementos componentes que a civilização tende a eliminar, seu poder apresenta nada que se lhe compare à solidez e à eficiência. O que se viu foi esse paradoxo: um possante Dodge puxado por uma junta de bois!?.

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Meu pai era motorista de caminhão. Naqueles idos de 1957, eu atravessava com o pai aquele lamaçal onde o possante Dodge do professsor Temístocles encalhou. O caminhão de meu pai nunca encalhou, era um poderoso Fenemê 1951. Partindo de Nova Trento, Santa Catarina, uma semana para chegar a São Paulo, onde passava as férias de julho, quase duas para molhar o pé nas águas da Guanabara. Em pleno verão o motor do Alfa Romeo fervia, os caminhoneiros dirigiam com as portas abertas e o menino decorava a paisagem com as pernas de fora. No alto da Serra da Santa, ao lado de um altar junto à cascata, a bica da santa era uma bênção.

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Aquela estrada de pó e lama era um cordão umbilical a unir Santa Catarina com o Paraná, e aqui nasceram os meus dois filhos. Muitos anos depois, com a estrada já duplicada, estávamos regressando das férias de verão quando, de repente, meu filho Pedro confirmou que registro de nascimento é uma mera formalidade:

– Me acordem na divisa do Paraná com Santa Catarina!

– Por quê?

– Para mudar o sotaque!

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Aquele verão não foi o último e, se a santa da bica assim desejar, este também não será o último verão em que os paranaenses ganham ânimo para descer a serra, com pedágio ou sem pedágio.

Só o que nos deixa desanimados são aquelas caipirinhas a menos que as concessionárias vão nos tomar.