15 de novembro de 1889. Poucos dias antes, o presidente da Província do Paraná mandou arrear os cavalos para buscar a família na cidade de Palmeira. Seria a última vez que o conselheiro Jesuíno Marcondes contemplaria os pinheirais onde nasceu. Os dias seguintes seriam de despedidas, para uma viagem que acabaria em notícia no jornal Diário da Tarde, redigida por Ermelino de Leão na edição de 8 de outubro de 1903.
?Infausta notícia para o Estado do Paraná: falleceu hontem, na Suissa, um dos seus mais dilectos filhos – o conselheiro Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá.?
Nosso último homem do Império, conselheiro Marcondes estava com a família na casa de campo, nas proximidades de Genebra, onde tinha passado relativamente bem o verão, na companhia de filhos e netos. ?Affectado de longa data de arterio esclerose, com o coração muito mal, tinha-le sobrevindo uma embolia, que na perna direita produzia phenomenos gangrenosos. (…) Na noite de 6 de outubro entrava em agonia e a 1/4 da madrugada expirava serenamente, como um justo que sempre foi.?
?Em Genebra abriu-se a sua sepultura?, narrou o historiador Ermelino Agostinho de Leão (1871-1932).
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Confortado pela esposa, Domitila Marcondes Alves de Araújo, uma filha e um filho, no caminho de volta da Palmeira o monarquista explicava à família o que de tão grave sucedia: a proclamação da República era coisa de uma hora para outra. Restaria passar o cargo para algum republicano e, depois de uma breve estadia em São Paulo, partir para a Europa. Assim foi.
Proclamada a República, marechal Deodoro da Fonseca confiou o governo do Paraná ao coronel Francisco José Cardoso Junior, o comandante da guarnição. A transmissão do cargo ocorreu sem o menor incidente.
No momento seguinte, a história encontra o último presidente da Província do Paraná em Genebra: ?Em uma linda vivenda na pittoresca e doce pátria de Guilherme Tell, o exilado voluntário não esquecia um instante o seu Brasil, e muito menos o seu querido Paraná?.
Formado em ?sciencias sociaes e jurídicas?, conselheiro da Coroa, deputado geral e ministro de Agricultura do Império, o filho do barão de Tibagy era um visionário: autorizou a explorações para a navegabilidade dos rios Iguaçu, Paranapanema, Tibagi e Ivaí. Fez projetos para a abertura de uma estrada ligando Palmas a Corrientes e impulsionou a construção da Estrada da Graciosa, além de iniciar a construção de uma outra, entre Curitiba e o porto de São Francisco (SC), sustada pelos republicanos.
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Da Suíça, o último paranaense do Império mantinha com o Brasil uma relação epistolar – felizmente preservada por Ermelino de Leão, o fiel amigo e depositário, em seu Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná, rara edição de 1926.
?Eis o conselheiro Jesuíno Marcondes em sua correspondência íntima.?
?Genebra, Setembro 15-1895. – Correm as semanas e mezes, as noticias do Brazil são sempre as mesmas: Canudos devorando o exercito, o ?deficit? sem remédio, o câmbio submergido?.
?Sem pretender devassar o futuro, parece-me que São Paulo será ainda por algum tempo a terra dos presidentes.?
?Acabou o Brasil antigo, marchando a passo de boi, lento, mas seguro.?
?De lá me escrevem que os brasileiros mais felizes, são os que vivem fora da Pátria.?
?É bem amargo o pão no estrangeiro. O que me suavisa o seu trato é ter cá os filhos e as netas, e estar fóra de nossa hedionda política que já me enjoava em melhores tempos, quanto mais agora que se disputam os despojos a ferro e fogo. Será vicio orgânico da raça latina?.?
?Nice, 2 de dezembro de 1892 – O Brasil na Europa está como o Paraná no Brasil, a imprensa o esqueceo, o telegrapho só dá o cambio e o preço do café.?
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O último homem de D. Pedro II é uma travessa em Curitiba. Aquele que começou na Palmeira e terminou em Genebra, hoje começa na Praça Osório e termina na antiga Rua Aquidaban (Emiliano Pernetta).