O time argentino e o baixinho de Mato Grosso

No final da tarde de sábado passado, enquanto quase um milhão de pessoas se acomodava nos sete quilômetros da orla de Camboriú, na ponta norte do maior balneário do Sul, quase em frente ao Hotel Marambaia, uma nervosa galera parou para assistir ao maior clássico do futebol latino-americano, em sua versão na areia. Cada time com sete jogadores na linha e um no gol. De um lado, a seleção brasileira local, com a gloriosa camisa amarela pentacampeã do Brasil, com a seguinte escalação:

– Maringá, Galego de Blumenau, Leite Quente e Manezinho da Ilha; Pelotas, Escurinho de Itajaí, Ribeirão Preto e Pé-Vermelho. Reservas: Cascavel, Barriga Verde, Fome Zero, Tietê e Beira-Mar. Técnico: Nove Dedos.

Do outro lado, a escalação de turistas, envergando a temida azul-celeste argentina:

– Patagônia, Corrientes, Gardelón e Malvinas; Topo Gigio, Bariloche, Menenzito e Torrado. Reservas: Rozado, Magrón, Kuke, Vidella e Boca. Técnico: Canasvyeras.

Em torno do campo de areia, a torcida se dividia: em menor número, os gringos se empanturravam de milho verde e churros. Majoritária, a brasileirada fazia fila para a caipirinha dos quiosques. Por trás dos edifícios da Avenida Atlântica, o sol fazia sombras ao trânsito congestionado, proporcionando, também na praia, um fim de tarde propício para a prática do rude esporte bretão. Vento leste, temperatura de 28 graus. Bem, amigos… o cenário estava completo, faltando apenas o Galvão Bueno para botar fogo no circo. Mas ele não fez falta.

Mediando a porfia, um corajoso e invocado baixinho, robusto feito o Maradona, mas brasileiro de Mato Grosso. A regra é clara, alertou Sua Excelência o baixinho árbitro: trinta minutos para cada lado, bola na segunda onda é lateral, não vale pé no ouvido e quem xingar a mãe do juiz vai pro chuveiro do quiosque. Pelo sonoro apito inicial, brasileiros e argentinos sentiram que o baixinho não levava desaforo pra Mato Grosso. E rolou a pelota, num praiano aperitivo do que seria o jogo de quarta-feira passada no Chile.

O primeiro lance do ataque brasileiro ocorreu logo aos primeiros três minutos, quando Galego de Blumenau disparou carregando a bola na primeira onda, passou um chapéu em Topo Gigio, rolou para Escurinho de Itajaí que cruzou para Pé-Vermelho cabecear, raspando a bola no travessão. Aos onze minutos, resposta da Argentina: depois de receber um preciso passe de Malvinas, o atacante Torrado ficou cara a cara com o goleiro Maringá, que praticou uma corajosa defesa, ralando na areia. A torcida argentina foi ao delírio. E aplausos brasileiros para o intrépido paranaense. Na seqüência, o juiz baixinho de Mato Grosso deu um cartão amarelo para o infeliz Torrado, por juego muy peligroso.

Os brasileiros abriram o placar aos vinte do primeiro tempo, quando o atacante Ribeirão Preto roubou a bola na beira d?água, tocou no meio para Escurinho de Itajaí que driblou um, driblou dois, passou pelo goleiro Patagônia, entrou com bola e tudo e correu pro abraço. Pelas barbas do profeta! A torcida brasileira teve orgasmos. Alguns torcedores argentinos foram comprar milho no quiosque.

No segundo tempo, a Argentina passou a pressionar. Como sempre, a torcida portenha botou o time pra frente, parecendo estar em pleno Monumental de Nuñes. Os brasileiros recuaram o time, sentindo a reação inimiga. Pressão total, quando aos dezoito do segundo tempo saiu o gol de empate. O zagueiro Leite Quente fez falta na lateral, botando um gringo pra beber água salgada na arrebentação. Gardelón bateu a falta e o goleiro Maringá espalmou. No rebote, o gol argentino. Foi só milho verde que voou na comemoração da torcida portenha.

Com 1×1 no placar, o Brasil equilibrou a partida, tocando a bola. Reis da catimba, os gringos administravam o resultado. Aos 23 da etapa final, Bariloche e Pé-Vermelho se estranharam numa bola dividida junto ao calçadão da Avenida Atlântica. Pra piorar, a bola espirrou, quebrando o vidro de um carro importado. O juiz de Mato Grosso, mostrando personalidade, expulsou os dois atacantes. O técnico argentino Canasvyeras protestou, e também foi para o chuveiro do quiosque.

Faltando meio minuto para o final da porfia, escanteio para o Brasil. Confusão na área. Sua Excelência o árbitro baixinho de Mato Grosso tentou botar ordem na casa, inutilmente. Empurra daqui, empurra dali, 16 adversários embaixo da trave argentina. Ribeirão Preto bate o escanteio. A bola subiu espetacularmente, o vento leste fez a pelota parar no ar e cair perpendicularmente bem no olho do furacão, num emaranhado de gente.

Afastado do caos, o baixinho de Mato Grosso trila o apito. Pênalti para o Brasil!!!

Por supuesto, o sucedido después yo no tengo palavras para narrar.

Os portenhos partiram pra cima do baixinho de Mato Grosso, com cocos verdes nas mãos, enquanto o time azul-celeste se retirava do campo em prantos, inconformado com o desenlace. Entre os brasileiros, um carnaval fora de época. E era só sabugo de milho que voava e argentino que chorava.

Horas depois, ainda escondido no interior do Hotel Marambaia, o juiz baixinho de Mato Grosso desabafou:

– Empatar com os gringos, aqui na nossa praia… nem sobre o meu cadáver!

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