O taxista do Leminski

Paulo Leminski era um sábio. Não sabia dirigir. Quando o poeta se deslocava de sua casa na Cruz do Pilarzinho, chamava um táxi. E sempre o mesmo táxi.

Hasiel Pereira era o taxista do Leminski. Ex-vereador em Curitiba, Hasiel tem uma história parecida com a de tantos outros paranaenses. Uma história parecida, até certo ponto, porque nem todos passaram pelas masmorras da ditadura, antes de se tornar motorista do poeta.

Hasiel Pereira é baiano, nascido em Vitória da Conquista. Fugido das garras da repressão, em São Paulo, aqui chegou escondido. Desembarcou de um ônibus, tomou um táxi e se fez taxista do Leminski. Na década de 70, era um ativo membro dos movimentos sindicais e do velho MDB, de onde saiu duas vezes vereador. Nas idas e vindas da Cruz do Pilarzinho, Hasiel não só ganhou um passageiro inspirado, ganhou também um companheiro de boemia, um confidente privilegiado e um eleitor declarado. Leminski chegou a botar a cara na tevê para pedir o voto. De vereador, sempre nas lides políticas, hoje Hasiel de Souza Pereira Filho é assessor político especial do governo do Estado.

Pena que o taxista do Leminski tenha cruzado outros caminhos, ao largo da Cruz do Pilarzinho. Se assim não fosse, talvez o destino do passageiro seria outro.

***

Não mais de vinte dias, nos telefonou o motorista do Leminski:

– Já marquei consulta e vocês dois vão parar de fumar!

No dia anterior, durante uma rápida visita de trabalho a esta Redação, o taxista do Leminski bem que observava os dois fumantes inveterados: Mussa José Assis, quase dois maços por dia, e este escriba que não deixa por menos.

– Vou marcar uma consulta para vocês com um acupunturista de Campo Largo. Acreditem, a acupuntura me fez largar essa praga. Já no dia seguinte à primeira consulta, a nicotina provoca um gosto horrível na boca e o cigarro deixa de ser um prazer.

O motorista do Leminski só não nos conduziu de carro ao acupunturista de Campo Largo. De resto, fez tudo: marcou a consulta e desenhou o mapa de chegar. Antes de qualquer coisa, é bom dizer que chegar lá é fácil. Difícil é parar de fumar. Mas não é impossível, espero.

Sempre fui um incrédulo quanto à acupuntura, não consigo imaginar uma agulha substituindo vinte cigarros ao dia. Mas agora devo admitir que o motorista do Leminski tem razão: o acupunturista parece um poeta e aquelas agulhas até não doem, lembram um hai-kai. Um exame do fundo do olho, raio laser no ouvido esquerdo e as agulhas no ouvido direito. Cada furinho uma causa, cada causa um remédio. Você é uma criatura ansiosa? O furinho é mais em cima. Há de ter problemas com o estômago? O furinho é mais embaixo.

Com a orelha direita cravada e protegida com pequenos esparadrapos, voltamos à estaca zero, e concede o acupunturista:

– Vocês não precisam jogar fora o cigarro. Fumem normalmente. Um dia depois do outro, assim vai sumindo o cigarro. Aniquilar o vício é fácil, bem mais difícil é combater o hábito.

 Não vou dizer aqui o nome da clínica, porque convém dar tempo ao tempo e, se não ganharmos a guerra, que não seja culpado o simpático doutor X. Só devo dizer que as agulhinhas são poderosas. Já no dia seguinte deu para confirmar a advertência do taxista do Leminski: a nicotina provoca um gosto horrível na boca e o cigarro deixa de ser um prazer. Ao longo dos primeiros quinze dias, uma espécie de letargia nos abate, se observa o freio de mão puxado, se desacelera, como se ocorresse uma queda na eletricidade. Com a ansiedade reduzida, o consumo de cigarros caiu pela metade.

Ao nos receber para a segunda consulta, há três dias, doutor X nos advertiu:

– Até o amarelo da pele diminuiu, já vencemos o vício, agora vem o mais difícil: combater o hábito e chegar lá.

Isso veremos ao longo da estrada. O taxista do Leminski nos conduziu por um bom caminho. 

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