Se interessar a alguém minha opinião acerca do governo de Roberto Requião, tenho a declarar que a sua grande atitude foi nomear a própria esposa para administrar o Museu Oscar Niemeyer.
Maristela Requião adotou a bela e antes controvertida obra de Jaime Lerner, fazendo com que a população do Paraná também assumisse a adoção.
No dia 27 de dezembro de 2002, quando o então vitorioso candidato Roberto Requião ainda escolhia os quadros de sua administração, tive a presunção de sugerir o nome de Maristela para a direção do Museu Oscar Niemeyer. Se naquele dia o futuro governador leu ou não leu esta coluna, não importa. Registrado está, e vale o que está escrito: ?Quem é o cotado (ou o coitado) para a direção do NovoMuseu (assim era o nome)? Pra trocar fraldas desse robusto bebê recém-nascido, não sejamos machistas passando a tarefa única e exclusivamente para Vera Mussi (indicada para a Secretaria da Cultura). Caso o governador Requião não encontre nenhum macho com habilidade pra tanto – com todo o respeito -, por que não Maristela Requião? Ela tem talento, conhece e sabe do que acontece no mundo, não tem uma cabeça provinciana e, principalmente, estará dando expediente a poucos passos do marido e da chave do cofre. Além do mais, onde já se viu uma primeira-dama que não cuida de creches, mas sim de um poderoso museu? No bom sentido, seria um susto?.
O robusto bebê nem bem completou quatro anos e já caminha com os próprios pés. Do zero, Maristela criou um acervo de respeito para o MON. Sem considerar o admirável ?portfolio? construído nesses quase quatro anos de atividades, é preciso destacar a importância da inédita exposição que desde sábado – e até o dia 28 de maio – o museu nos concede o prazer de conhecer: Amilcar de Castro – Programador visual e ilustrador de publicações.
Na biografia de Amilcar de Castro, falecido em 2002, o artista carrega três feitios: o ilustrador, o escultor e o diagramador. E é sobre este último – poucos admitem esta denominação, hoje genericamente reconhecido como ?programador visual? – que o curador da exposição, José Francisco Alves, deu especial atenção. Até então, da obra de Amilcar de Castro reverenciavam apenas o ?artista plástico?, em detrimento do ?diagramador?. A atuação de Amilcar de Castro na diagramação de grandes jornais só era reconhecida pelos profissionais da área gráfica. O diagramador nunca foi contemplado com uma exposição como esta. Eis aí a importância da exposição, onde se mostra o ?programador visual? que revolucionou a imprensa brasileira. Desde quando o diagramador mudou a cara do então vetusto Jornal do Brasil, em 1957 – oxigenou o espaço, retirou o emaranhado de fios e valorizou a fotografia e a ilustração -, até o seu último trabalho editorial no Jornal de Resenhas da Folha de S. Paulo.
É preciso não esquecer: Amilcar de Castro era um jornalista, posto que era um diagramador. No MON, podemos analisar velhas edições da revista Manchete, o primeiro trabalho gráfico, as várias etapas da reforma gráfica do Jornal do Brasil, entre 1957 e 1961, sua atuação como ilustrador e capista da célebre série de livros de Kafka, além de diversos originais e fac-símiles de outras peças gráficas como logotipos, cartazes e impressos.
Amilcar de Castro – Programador visual e ilustrador de publicações – está no lugar certo, e temos tudo a ver. Maristela Requião sabe da importância das artes gráficas para Curitiba. Aqui nasceu a pioneira Impressora Paranaense – fundada em 1888, obra de Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Cerro Azul -, aqui viveu por um largo tempo Reinaldo Jardim – que com Amilcar de Castro também revolucionou o JB e a imprensa brasileira – , aqui vimos crescer as revistas Joaquim, Raposa, Nicolau, Rascunho e tantas outras publicações de vanguarda, aqui nos orgulha a revista Gráfica, jóia rara do artesão chamado Miran – um dos maiores artistas gráficos do mundo.