Quando o mais velho dos cardeais anunciar da janela do terceiro andar do Palácio Apostólico a boa nova – ?Annuntio vobis gaudium magnum Habemus Papam? -, a Igreja ganha um novo papa e os católicos um novo santo: São Karol Wojtyla.

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O cardeal Angelo Sondano, secretário de Estado do Vaticano, já havia ?canonizado? João Paulo II domingo passado, perante a multidão de fiéis: ?Eu o vi… ele morreu com a serenidade dos santos?. Sondano apenas proclamou o sentimento de tantos fiéis que se dizem beneficiados pelo poder milagroso de Wojtyla.

Todo processo, da beatificação à canonização, é muito demorado e exige a comprovação de pelo menos três milagres. Um deles Karol Wojtyla já realizou, quando canonizou a imigrante italiana Amabile Visintainer, a primeira santa do Brasil, em 19 de maio de 2002.

O milagre de João Paulo II, o Grande, foi mesmo dos grandes. E não beneficiou apenas uma pessoa. Curou da morte uma cidade inteira: Nova Trento, em Santa Catarina. A terra de adoção da primeira santa brasileira tinha então em torno de 7 mil habitantes, e minguava a olhos vistos, coitada. Sofria do mesmo mal de que vem padecendo tantas pequenas cidades brasileiras: êxodo rural, carência de emprego e educação. Era em ?metástase?, com ?degradação econômica generalizada?, quando Karol Wojtyla anunciou o milagre da canonização. A regeneração da cidade não foi um milagre de Madre Paulina. Foi o grande milagre do grande papa e Nova Trento entrou definitivamente no mapa do Brasil por sua obra e graça.

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Os neotrentinos tinham encontro marcado com dois João Paulo, que nunca se realizou pessoalmente. O papa veio ao Brasil mas não viu Nova Trento. E Nova Trento foi a Roma mas não viu o Papa.

Quando Albino Luciani foi ungido João Paulo I, a cidade tinha entre seus habitantes vários descendentes diretos da família Luciani, companheiros de viagem de Amabile Visintainer, parte do primeiro grupo ?oriundi? que vinha fundar a cidade, em 1875. Primos e sobrinhos do ?Papa Sorriso? saíram do anonimato. Um deles desceu o morro do cemitério, onde era humilde jardineiro, para dar entrevistas ao mundo dos vivos. Com o retrato autografado do primo papa sob a mesa, respondeu ao repórter o que esperava do novo pontífice: ?Uma casinha?.

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Não ganhou uma casinha. Ganhou convite e passagem para conhecer o primo no Vaticano. Acompanhado do prefeito, juntou o retrato autografado ao passaporte e foi a Roma. Embarcou em Florianópolis com o primo vivo, desembarcou em Roma com o primo morto. O Luciani de Nova Trento apenas conheceu o aeroporto Fiumicino, de onde retornou. Não foi a Roma, não viu o Papa.

No seguinte encontro marcado, o segundo João Paulo, o Wojtyla, foi a Santa Catarina mas não viu Nova Trento. Em 1991, sussurrava-se na cidade que o papa, bem cedinho, antes da cerimônia pública em Florianópolis, visitaria Vigolo Vataro, bairro onde se ergue a velha igreja de Madre Paulina. Por desejo próprio e fora do programa oficial, o papa chegaria de helicóptero, pousaria no grande terreno ao lado da igreja, entraria no convento e depois seguiria para Florianópolis. Tudo na maior discrição e ?sigilo?. De repente, a notícia se espalhou. Ganhou força porque o colégio das freiras, abrigava seguranças, o terreno ao lado da igreja de Madre Paulina foi transformado às pressas em heliporto.

Filas de carros lotados começaram a se formar desde o início da noite de véspera, na estrada de terra de Vigolo Vataro, caminho para o santuário. Era uma noite fria e surgiram, como por geração espontânea, barracas de lanches, churrasco e bingo. A Polícia fechou a estrada lá pelas 9 da noite. Quem conseguiu entrar, passou a noite esperando o papa, dormindo no carro, comendo do farnel e jogando cartas.

O dia amanheceu chuvoso, com a névoa baixa encobrindo o topo dos morros do vale. Bem cedo, começou a movimentação das famílias inteiras a providenciar local para as abluções matinais e o café. De repente, do alto de um morrote envolto por uma nuvem, ouviu-se o ronco de um motor que ecoava longe. A multidão correu para o entorno do improvisado heliporto, gritando: – É o helicóptero! – É o Papa! Era criança correndo, todo mundo se olhando, cantando: ?A bênção, João de Deus…?

Não era o helicóptero, não era o papa e o sonho acabou: era uma patrola descendo uma estrada, saindo da névoa, contornando o morro. O fim do sonho foi uma patrola alisando a terra.