Seria um paradoxo o sisudo economista, consultor de empresas, conviver com o desenhista de fino traço, pintor de rara sensibilidade?

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Seria um paradoxo o sisudo economista, consultor de empresas, conviver com o desenhista de fino traço, pintor de rara sensibilidade?

Seria um relativo paradoxo se o técnico e o artista fossem criaturas distintas. Quando se trata de José Monir Nasser, é o técnico e o artista que se manifestam numa só personalidade. À luz do dia e à luz das ciências econômicas, José Monir pode ser encontrado na universidade ou numa empresa, dissertando sobre o passado, o presente e o futuro dos números.

Quando o sol se põe, este homem que sabe calcular se transmuda num desenhista de fino traço, pintor de rara sensibilidade, encastelado num pequeno atelier de cobertura onde guarda dezenas de telas e muita história. Na esquina da Rua Riachuelo com Tobias de Macedo, o atelier já foi do pintor Estanislau Taple, um dos expoentes da pintura paranaense, e há 12 anos é doce ninho do Monir que voa. Sem elevador, chega-se ao topo do velho edifício por uma escada estreita, cheirando a mofo e mais acima cheirando a tinta. ?É a coisa mais velha que eu me lembro na minha vida?, diz Monir, referindo-se às artes: com 10 anos, era aluno da Escola Juvenil de Artes, na Biblioteca Pública do Paraná, discípulo do mestre Luís Carlos Andrade e Lima, até se fazer economista e aprender, sem nunca ter trabalhado no governo, que no Brasil 1 + 1 pode ser igual a 3.

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Sabendo que os números não mentem, concluiu que alguém precisava explicar essa estranha aritmética brasileira. Somou o artista ao economista e se fez também escritor. Seu último livro ainda não chegou às boas casas do ramo, mas já circula no Brasil que deu certo.

O Brasil que deu certo – A saga da soja brasileira (Tríade Editora, 280 páginas), em parceria com o também economista Gilberto J. Zancopé, é o sumo de seis meses de pesquisas ?num campo onde o governo não havia prestado atenção, não encheu o saco, e por isso deu certo!? – falando agora o artista, já posto à mesa do bar, na lida do charuto e de um uísque curto e puro.

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Da história da soja, vida e glória, a obra destaca dez teses originais e a mais importante delas: ?Antes das imigrações alemãs e italianas, não havia agricultura moderna no Brasil?. Desde o milho no Brasil colonial, grão rejeitado pelos gentis senhores de engenho e destinado aos escravos e animais, a primeira cultura moderna no Brasil foi o trigo. A segunda foi a soja.

A soja, o soja, masculino ou feminino, não importa, porque ouro não tem gênero, tem quilates, e soja é ouro no Brasil. Por incrível que pareça, a maternidade da soja brasileira foi o Nordeste. Não deu certo e nem podia, que naqueles tempos nem ar-condicionado existia: ?O primeiro registro de soja no Brasil é de 1882, quando um sitiante da Bahia a plantou com sementes de origem francesa. Quando a soja chegou ao Brasil de Jeca Tatu, nunca ninguém tinha visto, nem aqui nem na China. ?A soja é originária da parte temperada da China, mais especificamente da Manchúria, e no transporte para a América, primeiramente para os Estados Unidos, obteve mais sucesso entre as latitudes 35º e 43º que, no Hemisfério Sul, estão equivalentemente limitadas ao paralelo 24, ao sul do Trópico de Capricórnio, guardião de áreas meridionais protegidas da inclemência do sol tropical.

A obra de Nasser e Zancopé não se aprofunda na questão do grão transgênico. Mas os autores não deixam de botar sua colher neste caldeirão: ?Há a ameaça de desprezo da transgenia, uma técnica de melhoramento vegetal que necessariamente será dominante e cujo comando tecnológico nos escapará, se não formos capazes de reorientar os investimentos de pesquisa (…) A vantagem que o germoplasma nacional conquistou sobre a concorrência multinacional pode perder-se rapidamente com o fechamento da janela da oportunidade, enquanto nos engalfinhamos em polêmicas bizantinas cuja ?raison d?être? é o jogo-de-braço entre ministérios?.

Por último, ?raison d?être? é o sentido último, razão de ser, traduz José Monir Nasser, também secretário do conselho diretor da Aliança Francesa em Curitiba.