Está deveras divertido acompanhar o chorrilho de pareceres, conjeturas, juízos e chistes sobre o NovoMuseu, ainda quente saído do forno e sendo servido ao povo num opíparo banquete cultural. Com direito a sessões extras de nudez conceitual, para horror dos nudofóbicos e gáudio dos nudômanos.
Vida longa ao NovoMuseu, pois graças a ele estamos encerrando 2002 com uma encrenca das mais animadas. A expectativa era de um final de ano bem chinfrim, não fossem os comerciais das Lojas Renovar, ainda a nossa maior diversão, depois do programa dominical da Maria Pia – atenção: a apresentadora não é parente do Zé Bidê, nem do João Vaso.
Enquanto isso, o melhor da festa de inauguração do NovoMuseu transcorreu no bar do Basset um amarelão exatamente em frente ao Olho – já popularmente conhecido como Olhômetro. Enquanto mil convidados se esbaldavam nos salões do Niemeyer, a rapaziada sem crachá se divertia na sacada do Olhômetro.
Um fundamentalista atleticano, por exemplo, depois do segundo Farol do Saber (copo longo, uísque triplo e gelo transbordando), já tinha um outro nome para a obra de Niemeyer: A Baixada da Cultura. E insistia argumentando: “Jaime Lerner jogou dinheiro fora. Com 14 milhões de dólares, ele podia perfeitamente fazer o outro lado da Arena e ainda dava pra pagar um curso de inglês pro Kléberson.”
Na mesa ao lado, uma estudante de Artes, que se dizia estagiária do pintor Rogério Dias, desmontava a tese de que o museu é inviável por falta de acervo próprio: “Acervo próprio se faz do dia pra noite. Basta convocar o Érico da Silva e o Celso Coppio: em um mês eles produzem um acervo completo. E pra preencher aqueles corredores, isso fica por conta do Calderari: ele faz uma marinha que começa no Pontal, passa por Gaivotas, Matinhos e termina no morro de Caiobá, pegando uma nesga da Praia Mansa.”
Ao lado da estagiária do Rogério Dias, um marqueteiro da agência do Ernani Buchmann concordava: “Até porque esse é um museu multiuso, não precisa de acervo. Imagino um calendário heterodoxo: o lançamento de um novo carro da Renault, com projetos de design pelas paredes, divinas modelos fazendo performances automotivas nas rampas, um show tipo assim os desfiles da Rhodia nos anos 60. Um desbunde tropicalista, com curadoria da Eliane Prolick. Ou então o lançamento da nova coleção da Incepa, com todas aqueles hectares ocupados com os desenhos originais de azulejos, criados pelos sobreviventes da histórica galeria Cocaco, com curadoria do Desidério Pansera, da Ópus Múltipla.”
“Se é por falta de acervo, deixa comigo! – interferiu o perfomático Rettamozzo “em dois toques faço uma instalação pra cada sala. Numa, boto o Luiz Geraldo Mazza pescando lambari numa banheira vazando espuma. Noutra, o Cid Destefani trocando figurinhas e fotos antigas com o Valêncio Xavier”.
E o papo no Olhômetro foi por aí, até chegar o Candinho Gomes Chagas, editor da revista Paraná em Páginas, com a seguinte manchete estampada na capa:
– Em terra de cego, quem tem um olho é rei!
Até sexta-feira e sai mais um Farol do Saber… red!