Quando partiu da ilha rochosa de Ítaca, Ulisses sabia que seriam vinte anos para reencontrar o filho Telêmaco e a esposa Penélope. Permaneceu em Tróia por dez anos e por outros dez singrou os oceanos, naufragou, perdeu velhos companheiros e, sempre com a vida por um fio, guerreou e derrotou criaturas inimagináveis.

Dos monstros, enfrentou Polifemo. O gigante de um olho só.

Feito ciclope da mitologia grega, um gigante Polifemo com seu único olho desafiando Curitiba, o NovoMuseu tem uma velha história a ser contada. História narrando epopéias de fim de governo.

Véspera de retornar à sua ilha da Rua Bom Jesus, no Juvevê, Jaime Lerner está enfrentando seu Polifemo, o gigante de um só olho do Centro Cívico. O mesmo monstro que o ex-governador Paulo Pimentel enfrentou, antes de retornar à praia de sua ilha na Rua Presidente Taunay, no Batel, em 1970.

A história desta obra de Niemeyer é uma odisséia da arquitetura paranaense. Projeto encomendado por Paulo Pimentel, nasceu como um novo casulo para o velho Instituto de Educação, ainda hoje na Rua Emiliano Perneta, em 1967. E, assim como hoje, foi uma saga de fim de governo, mas com um final não muito feliz: faltou pouco para ser inaugurado.

Ou, Ulisses quase morreu na praia – pelas mãos de Haroldo Leon Peres, governador entrante, nomeado pelo general Garrastazu Médici. Durante seis meses, Pimentel precisou resistir ao governo paralelo do ogro da ditadura, causando uma outra obra inacabada: o Teatro Guaíra. Do período de Haroldo Leon Peres, o Breve, até ser cassado por corrupção, restaram abandonadas as duas grandes obras. O Teatro Guaíra quase torrou em chamas e o novo Instituto de Educação teve um destino pior: ganhou o nome de Edifício Castelo Branco, para desgosto do comunista Oscar Niemeyer, vítima dos generais. Como se não bastasse o triste batismo, o prédio foi feito ninho da burocracia. Cruel metamorfose!

Trinta anos depois, outra metamorfose. O gigante Polifemo, com seus 33 mil metros quadrados de área construída, transformou-se num dos maiores museus do mundo, pelas circunstâncias de sua própria natureza. Saudado com fogos e festas, o grande olho de Polifemo agora resta desafiando Curitiba e os paranaenses, com uma pergunta de muitas respostas: o amanhã, o que será? Como uma esfinge, também questiona o próximo governo: decifra-me ou te devoro!

Enquanto isso, os artistas na planície olham o olho desconfiados, perguntando perplexos para si próprios: estamos chegando tarde, ou foi ele que chegou antes?

Respostas que virão quando os demais paranaenses, aos milhares, ocuparem o complexo dia após dia. Quando a população – o maior acervo – assume um espaço que é seu, está feita a mágica que nem Ulisses derruba. E sente que o olhar do gigante é generoso e enxerga longe.

Olho no olho, até quarta-feira.

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