O mestre de Santa Felicidade

Se todos os caminhos levam a Roma – ao sul de Florença -, em Curitiba todos os caminhos levam ao bairro gastronômico de Santa Felicidade e ao atelier de João Moro: uma casa branca no pé de uma ladeira, numa esquina abaixo do restaurante Porta Romana, à direita de quem vai.

Michelangelo levou três anos para concluir a escultura de David, o símbolo da República de Florença. Começou em 1501 e a concluiu em 1504. A obra retrata David no momento em que está apenas se preparando para enfrentar a força de Golias, que todos julgavam ser impossível de derrotar.

Filho de bravos colonizadores do sudoeste paranaense, o artista João Moro, 47 anos, também venceu adversidades que muitos julgavam impossíveis de derrotar. Nascido em Pato Branco, no sudoeste do Paraná, mudou-se em 1986 para Curitiba, para ingressar da Faculdade de Belas Artes. A partir daí – orgulha-se – nunca mais foi empregado de ninguém, muito menos do Estado. Esculpindo, pintando e bordando paredes e painéis, hoje assina embaixo de uma das maiores oficinas de escultura e restauros do Brasil. É o feliz mestre de obras do mais completo atelier particular de gravura do Paraná. Com três prensas para litogravura, gravura em metal e xilogravura, Moro tem no seu patrimônio um raro acervo de pedras litográficas originárias da Bavária. São pedras extintas, herança de seu avô, Valeriano Moro, um velho engenheiro químico da Klabin. As pedras eram usadas para as gravuras de embalagens e, com a modernização dos equipamentos, restaram para o neto de Valeriano as centenas de pedras que até mesmo na Bavária original são motivo de cobiça.

Se Buonarroti é o referencial de Florença, João Moro é uma referência em Santa Felicidade. Dos cozinheiros, passando pelos garçons, até os senhores proprietários de restaurantes, não há quem não cumprimente o mestre com cordial respeito e belos motivos. Do cardápio de João Moro, podemos nos deliciar com as pinturas em afresco do Madalosso, os painéis do Porta Romana e da Pizzaria Pompéia, a fachada do Siciliano, a escultura do galo do Madalosso, o painel em relevo do Dom Antônio, painéis de carvalho e estátuas da história da família Durigan, mais obras diversas no Piemonte, Vinhos Durigan, Vinhos Santa Felicidade, Peixe Frito e Sabor da Gula, entre outros. Restaurações da Igreja do Portão em Curitiba, do Palácio Seráfico de Rio Negro e da estação ferroviária de Antonina. Em fase de acabamento, uma escultura em mármore de sintético, de seis metros da altura, para o novo Crematório Vaticano (foto).

Com obras espalhadas pelo Brasil – entre eles os painéis internos para todas as agências do banco português Banif – sua maior e mais recente criação está erguida em São Paulo: uma escultura de 23 metros de altura na Rua 23 de Maio com Avenida Paulista.

De voz e aparência calmas, João Moro não consegue esconder um olhar elétrico de quem quer moldar um futuro maior ainda. Para o ano que vem deve criar uma outra grande escultura em Angola e, neste final de semana, é a estrela maior do Projeto Fera, da Secretaria de Educação, que se realiza no Parque Barigüi. Um bom programa para este final de semana: saborear o cardápio de Moro em Santa Felicidade, depois conferir 350 de suas obras (carga para três caminhões) espalhadas no mais freqüentado dos parques de Curitiba.

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