Dezembro é o olho do furacão de consumo que nos arrasa. É quando o assunto faz parar para pensar. O jornalista Tutty Vasquez puxou a conversa no sítio No Mínimo: ?Pode parecer maluquice, mas nove entre dez amigos meus têm o sonho de consumo de viver com menos dinheiro. Digo nove entre dez porque um, a cada dezena, já conseguiu o que todos almejam: reduzir seus custos a tal ponto que a vida não seja governada pela extrema necessidade de cobrir despesas?.
Conversa vai, conversa vem, e a publicidade colabora para tornar o assunto cada vez mais atraente: ?Nova frota de carrinhos aumenta índice de satisfação dos consumidores?, diz a notícia de uma rede de supermercados. Antes de se perguntar o que uma frota de novos carrinhos de supermercado pode contribuir para a felicidade geral, cabe uma outra pensata: será mesmo que para alcançar um mínimo de satisfação é preciso atender aos apelos de consumo para se gastar tanto dinheiro?
Gastar ou ?torrar? ? – eis a questão. Gastar, você sabe: é comprar, por segurança, pneus novos para as viagens de fim de ano. ?Torrar?, estamos aprendendo: é comprar por impulso um celular novo. O velho não tem visor colorido, não tem fotografia, não toca mp3, não tem e-mail, mas nos atende perfeitamente bem e não vai nos custar uma nova tormenta no cartão de crédito. Um celular no bolso, para quem precisa, não é supérfluo; quanto mais moderno, ótimo.
A tendência que está flutuando no ar é ?torrar? tudo que é supérfluo. Tutty Vasquez sustenta ainda em sua coluna na internet que ?só se pode ser livre quando se sabe viver com pouco dinheiro?, e uma sua leitora – Maura, do blogue Diário de Lisboa -, reforça: ?Eu vejo vários amigos ?mudernos? e ?antenados? gastando o que têm e o que não têm (e viva o cheque especial!) porque não lhes passa pela cabeça que não é necessário gastar tanto para viver?.
Abrindo um parágrafo para a primeira pessoa do singular, com a devida permissão do ego, confesso que estou inscrito nessa tendência, na medida da minha resistência. O que não é fácil, quando é possível. Na semana passada estive em Foz do Iguaçu, onde presidi o júri do Festival Internacional de Humor das Cataratas. A tríplice fronteira é o paraíso do ?quanto mais melhor?. Não atravessei a ponte por preguiça: DVD, laptop, i-pod, óculos, roupas e tênis de marca, bugigangas da informática… ai, que preguiça! A piscina do Hotel Internacional estava boa demais. Naquele calor, e com quase cinco mil cartuns para julgar, quanto menos trabalho melhor, porque o menos é mais.
Celular, há muito não tenho, depois de ter perdido o terceiro, e não me faz falta. De relógio não careço, se todos têm celular. Roupas, o mínimo necessário, que nada supera o velho calção de banho e aquele chinelo do verão passado. Automóvel, o ideal de consumo seria apenas andar de ônibus ou táxi. Os melhores restaurantes são aqueles de sempre; cabem no meu bolso e o bom vinho tem seu preço justo, como recomenda mestre Zanoni. O menos é mais e, como já não sou mais o mesmo, se hoje fosse feliz proprietário de noventa apartamentos, só ficaria com dois: um aqui, outro na Itália. Só!
O menos é mais, inclusive a barriga. Mas este é um outro quesito, entra na lista das providências a tratar em momento oportuno, nunca num final de ano.
Sim, é preciso convir; o menos é mais para quem fala de barriga relativamente cheia. Com tanta miséria rondando as portas do shopping, não é um tema politicamente correto a ser tratado.
Entretanto, e bem a propósito, a questão merece entrar na pauta nacional, chegar aos ouvidos de quem, por dever de ofício, precisa pensar no assunto:
– Lula: o menos é mais! Fale menos e faça mais!