O menino da tia Chiquita

Certa vez perguntaram ao ex-prefeito e ex-ministro Rafael Greca se em algum momento de sua vida ele chegou a pensar em ser padre. O atual deputado estadual revelou então que o padre Eugênio Mazzarotto chegou a visitar sua casa para convidar o coroinha a ingressar na vida religiosa. De medo, o menino se enfiou embaixo da cama e de lá não saiu enquanto tia Chiquita não o convencesse de que o primo Mazzarotto não o levaria arrastado para um seminário.

Quando João Paulo II veio a Curitiba, almas danadas juravam que o papa havia prometido nomear Greca cardeal biônico. A pura verdade é que aquele menino da Rua Inácio Lustoza, nascido à sombra de quatro igrejas – Catedral, Ordem, Rosário e Luterana -, tinha outras vocações, e confessava que não era dotado de talento necessário para ser padre. Com o fraseado típico de seus discursos, a predestinação política convencia: ?Eu preciso servir o povo tendo acesso aos outros apetites, que aos padres não é dado?.

Rafael Greca não ganhou o chapéu cardinalício. Mas já fez por merecer um púlpito privilegiado, desde quando criou a Festa da Ordem, a ecumênica festa do largo que aguarda neste final de semana 150 mil visitantes.

Com sol ou chuva, desde 1978, é uma quermesse à moda antiga, paroquial, alegre como uma festa no interior. A celebração a São Francisco no Largo da Ordem nasceu de fato franciscana, apenas doze barracas com o objetivo de arrecadar fundos para a reforma da Igreja da Ordem. Ainda na ditadura, ?Restaure-se a Ordem? era o mote.

Assim diz a história oficial, mas teve uma outra motivação pouco lembrada. Na origem, a festa e a restauração da Igreja da Ordem foi uma resposta de Rafael Greca à Arquidiocese de Curitiba, que na época empreendia um restauro equivocado na Catedral Metropolitana. O protestante ousou contestar o projeto de reforma do templo neoclássico e com a polêmica estreou na vida pública justamente defendendo o patrimônio histórico. O projeto malfadado, entre outras deturpações históricas, previa a derrubada do altar-mor em nome da nova liturgia e uma pintura encomendada ao próprio capeta.

A recuperação da Ordem foi então resposta e exemplo de Greca à restauração da Catedral engendrada pela Cúria Metropolitana, de quem a ovelha rebelde só veio a se reaproximar por obra e graça daquela primeira festa, que rendeu respeito e 500 mil cruzeiros.

Uma soma respeitável para a época, suficiente para iniciar as obras no mais antigo dos edifícios de Curitiba que – dizia Greca, para injúria dos acomodados – mais parecia um banheiro de rodoviária de interior, coberto de ladrilhos, pastilhas e sancas de gesso. Há quem lembre do episódio de apliques de gesso caindo e os fiéis no desespero de almas penadas.

O ?enfant-terrible? da Rua Inácio Lustoza – que com 17 anos já escrevia como gente graúda – abriu as portas da capela e discutiu o projeto de restauro ao lado do povo interessado. Com um projeto do arquiteto Cyro Corrêa Lyra – o mesmo que foi induzido a carregar nas tintas da Catedral -, com o empenho da população e com dinheiro angariado no Largo da Ordem, o resgate da velha igreja foi concluído em 1979, exatamente 100 anos depois do primeiro restauro.

Quase trinta anos depois, restaure-se o mérito. Acima de facções políticas, façamos justiça à perseverança de Rafael Valdomiro Greca de Macedo, filho do professor Eurico, neto do pedreiro Greca que calçou grande parte das ruas de Curitiba e bisneto do comendador José Ribeiro de Macedo, o senhor de Porto de Cima.

Em 1982, quando botou seu nome nas urnas pela primeira vez, Greca afirmava que queria ser um vereador de aldeia e agradecia Tolstoi: ?Quando a gente consegue, mesmo numa cidade grande, ter a cabeça de aldeia, consegue ser universal?.

Foi longe o menino da Tia Chiquita. Vinte e nove festas da Ordem, uma atrás da outra, é um bom caminho andado.

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