Leonel de Moura Brizola só não foi presidente da República porque não era do Sudoeste do Paraná. Se nos meados do século passado o engenheiro tivesse migrado para Pato Branco ou Francisco Beltrão, a exemplo de tantos outros conterrâneos gaúchos, a gloriosa carreira política de Brizola ganharia uma outra trajetória e uma outra biografia.

O engenheiro Leonel teria lutado pelas terras, em 1957, liderando os colonos que invadiram cidades e expulsaram as companhias comerciais de terra e seus jagunços, ombro a ombro com o médico Walter Pecoits. Eleito prefeito de Pato Branco, e logo em seguida deputado estadual, viria para Curitiba, de mala e cuia, onde formaria uma outra base eleitoral. Derrotaria Ney Braga nas urnas, numa inigualável campanha, e seria o novo prefeito da capital. Por ampla maioria de votos, seria o governador mais jovem da história do Estado do Paraná. Quando da renúncia de Jânio Quadros, Brizola montaria no Palácio Iguaçu a Cadeia da Legalidade, para garantir a posse de Jango Goulart, vice em viagem para a China. Eleito deputado federal pelo Paraná, conclamaria a população do Sul a se levantar contra o golpe militar de 64. Integrando a primeira lista de cassados pelos militares, primeiro se refugiaria numa fazenda do Sudoeste paranaense e em seguida se exilaria no Uruguai.

Em 6 de setembro de 1979, quando Leonel de Moura Brizola desembarcou em Foz do Iguaçu, seria conduzido nos braços do povo até Pato Branco. No percurso, seriam realizados grandes comícios em Medianeira, Cascavel, Dois Vizinhos, lançando sua candidatura a presidente da República. Por margem minúscula, Brizola teria vencido o “sapo barbudo” no primeiro turno. Favoritíssimo, Brizola teria derrotado o alagoano caçador de marajás. E outra vez retornaria a Pato Branco, ainda nos braços do povo do Sudoeste.

Empossado presidente, na primeira hora do primeiro dia, Brizola convocaria uma reunião urgente com o FMI e lhe daria um rotundo não!

Bem, daí pra frente… só Deus sabe o que teria nos reservado aquele ex-prefeito de Pato Branco.

O Sudoeste do Paraná é uma região produtora de ministros; soja, milho e fumo também. E só não produziu um presidente da República porque Brizola – filho de lavradores, como todos os pioneiros do Sudoeste – nasceu no povoado de Cruzinha, que pertenceu a Passo Fundo, até 1931, quando passou a ser Carazinho. O Sudoeste é um celeiro de políticos, solo fértil de ministros. Se não, vejamos: Alceni Guerra e Borges da Silveira, ministros da Saúde; Deni Schwartz, ministro dos Transportes; e Euclides Scalco, todo-poderoso de Fernando Henrique na Casa Civil. Pelo porte, numa comparação proporcional com outras regiões do país, o Sudoeste é um fenômeno político.

Assim, em se tratando de fenômenos, o fenômeno Leonel de Moura Brizola só não foi presidente da República porque não migrou para Pato Branco ou Francisco Beltrão.

Por ativismo, Leonel Brizola ainda se faz presente no Sudoeste do Paraná. Amava aqueles pagos e era amado por sua gente. Em 1994, candidato a presidente, foi recebido em Francisco Beltrão com um comício jamais visto, apesar de o candidato pedetista amargar um dos últimos postos da corrida presidencial, atrás até do tosco candidato Enéas. Mas nada o desanimava; o entusiasmo da praça o revigorava. Após o comício, Brizola recebeu das mãos de um dos assessores a pesquisa do Ibope, pouco antes divulgada em rede nacional de tevê. Ao repórter que o abordou, ele explicou os números desfavoráveis, não sem antes um breve silêncio:

– A rigor… tem batata nessa chaleira. Compreendeu? Eu tenho cá comigo que o povo tá despistando!

O povo do Sudoeste não despistava e entendia as palavras do orador contundente e irônico, mesmo quando Brizola se autodefinia como uma “planta do deserto”, que só precisa de algumas gotas de orvalho para reverdejar.

Até domingo; e como dizia o velho Briza: “Se está faltando cana e tem alguém chupando melado, algo há”.

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