O jogo do poder

Livro, teatro, cinema, música, imprensa, são tantos os meios que falam da sede de poder na alma humana. Só faltava um videogame.

Faltava, pois acaba de ser lançado um jogo eletrônico chamado Republic: the revolucion, ambientado em uma ex-república socialista. Do nada ao poder absoluto, vale tudo. Do homicídio à manipulação da mídia. O protagonista é um jovem possuído por duas paixões: o desejo de vingança e a ambição. E o seu campo de ação é um fantasmagórico retalho do que sobrou da desagregação da União Soviética, onde um ditador arraigado ao poder instituiu um regime totalitário orwelliano. O objetivo do protagonista, e do jogo, é derrubar o ditador e tomar o seu posto.

Como? Como preferir. Como se lê nos jornais, nos livros de história, como se viu fazer em centenas de filmes. Se pode fazer como em O Poderoso Chefão e agregar-se à Máfia, como em Fahrenheit 451 e ingressar na polícia secreta para conspirar nas entranhas do regime. Também é possível copiar o roteiro de Fernando Collor de Mello, criador de um personagem chamado Caçador de Marajás. Com o apoio da mídia, das Alagoas aos pagos gaúchos, elle arrebanhou o público e deixou a crítica muda. Com produção e elenco milionário, o filme só não terminou bem por falta de coadjuvantes mais qualificados. Ou, porque não, se tornar um marquetólogo poderoso, um mago da manipulação da mídia.

Quando o jogo começa, aparecem algumas perguntas preliminares. Você deve escolher alguns textos subversivos. Qual sua escolha? A) Um manual de sobrevivência para terroristas urbanos. B) Um ensaio sobre o neoliberalismo e o mercado financeiro global. C) Um programa neurolinguístico, um verdadeiro e próprio guia de manipulação. D) Um manual de revolução política da KGB. Outro exemplo do jogo: um delator descobre os teus planos de conquista de poder. O que você faz? Explode a casa do dedo-duro para talvez convencê-lo de ficar ao seu lado? Escreve panfletos, manipulando nas sombras o discurso da multidão? Arregimenta a multidão para sabotar o comício dos teus adversários?

No fim desse primeiro percurso, o jogador está pronto. E como aconselhava Machiavel, a partir desse momento não se pode mais permitir nem um segundo de trégua ao inimigo. E são milhares as ações de ataque: recrutar partidários, convencer com dinheiro e até com carisma. Montar uma facção política e conquistar territórios. E, obviamente, pagar para matar adversários, corromper, aliar-se com gente sem escrúpulos. O objetivo é um só: substituir uma ditadura com uma outra, a própria.

Na República vivem um milhão de pessoas. Gente que se encontra na rua e com quem se interage, tem uma vida normal, um trabalho, uma família, uma pausa para almoço. As pessoas vão ao bar e lêem jornal, pegam táxi, têm idéias políticas. Alguns são aliados, outros são espiões. Dias e noites se sucedem na República e os programadores previram um outro componente humano: o desconforto. A cada três dias o protagonista faz um balanço de suas atividades e seu ímpeto se erode, sua determinação se deteriora. A percepção que tudo aquilo não faz sentido se apossa do jogador. Não vale a pena? Vale a pena continuar a se aprofundar em tanta sujeira? Trair as pessoas, usar inclusive a religião para guiar a massa? Como se satisfaz a sede de poder na alma humana? E ela se satisfaz?

Republic: the revolucion é um videogame. Mas, observando atentamente a realidade em nossa volta, podemos emular situações e identidades não virtuais. Proeminentes ou não, fomos testemunhas de muitas jogadas semelhantes. Daí a certeza que esse jogo vai fazer sucesso no Brasil. Melhor, talvez muitos saciem a sede de vingança, ambição e poder… virtualmente.

Até quarta-feira, e Republic: the revolution já se encontra à venda na Europa. Custa 55 euros e roda no PC.

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