O ilustre passageiro

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, Luiz Inácio da Silva chegou a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha daqueles companheiros que mijaram fora da bacia.

Entediado de tanto costurar, tricotar e bordar um novo ministério, o presidente Lula chamou seu motorista particular e ordenou:

– Não quero seguranças e vamos sair de fininho. Desejo dar um bordejo de carro para espairecer. Despista e toca para qualquer lugar, longe deste insensato mundo.

O motorista presidencial disparou pelas alamedas da Granja do Torto. Levantando poeira, a limusine preta embicou no sentido norte, como quem fosse se embrenhar no sertão de Goiás. Ao tomar uma das largas avenidas de Brasília, Lula mandou parar o carro. Por segurança, o motorista encostou num posto de gasolina. O presidente desceu da limusine, deu a volta no carro e ordenou:

– Vamos trocar de lugar. Você senta aí atrás e vou pro teu lugar, companheiro. Quero dirigir um pouco. Desde quando eu era metalúrgico, nunca mais me deixaram pegar na boléia. E agora que virei presidente, principalmente, quem pega no volante é o Palocci ou o Zé Dirceu… acho que esse foi o meu erro.

Relutante, mas acostumado a cumprir ordens, o motorista sentou-se na poltrona de couro traseira, feito uma autoridade de primeiríssimo escalão, protegido pelos vidros escuros do Ômega importado. Antes de dar a partida, Lula ainda pediu ao espantado funcionário da presidência:

– Companheiro, me passa o teu boné de motorista que é pra ninguém me reconhecer.

De óculos escuros, Lula engatou uma primeira. O Ômega deu uns solavancos e morreu. Repetiu a marcha, outro solavanco. Acelerou, mais outro solavanco. Engatou a primeira e o motorista lá atrás, de olhos esbugalhados e com a mão no Santo Antônio. Quando Lula conseguiu engatar a quinta, a viatura já estava fora do perímetro urbano de Brasília, numa das rodovias federais. E o chofer lá atrás, aboletado no conforto presidencial, com mão no Santo Antônio e orando por São Cristóvão, o padroeiro dos motoristas. Pelas janelas de vidro blindex, quase preto, de segurança máxima, o funcionário sentiu que a velocidade avançava na infração, pra lá de 140 por hora, e ouviu a sirene da Polícia Rodoviária Federal em sua traseira.

Lula piscou para a direita, diminuiu a marcha, foi para o acostamento e permaneceu firme no volante. Os policiais fizeram as manobras de rotina e se aproximaram do carro oficial. Lula baixou o vidro blindex escuro, um dos policiais examinou-o demoradamente e se afastou. Não pediu documentos, não fez uma pergunta e se retirou para a viatura policial. Confabulou com o companheiro e tomou o rádio:

– Alô, central… Carcará 1 falando. Câmbio.

– Positivo, Carcará 1: câmbio! – respondeu a central da Polícia Rodoviária Federal.

– Acabei de abordar uma viatura oficial preta. Apesar do vidro fumê escuro, e se não estou enganado, o ilustre passageiro trata-se de uma altíssima autoridade da República. Aguardo instruções, câmbio!

– Quem é a altíssima autoridade, Carcará 1? É o Severino Cavalcanti? Só ele pra fazer essas lambanças…

– Negativo, comando! É muito mais poderoso! Câmbio!

– Então é Delúbio Soares? Câmbio!

– Negativo, comando! É muito mais graúdo! Câmbio!

– Se é mais graúdo que o Delúbio, então é Genoino? Câmbio!

– Chefia, é de maior hierarquia… câmbio!

– Carcará 1, me responda: o infrator é Zé Dirceu? Câmbio

– Negativo. O peixe é dos mais graúdos, é o manda-chuva! Câmbio!

– Ora… é o próprio presidente Lula? Câmbio!

– Negativo! O presidente Lula é apenas o motorista. O ilustre passageiro é muito mais poderoso… Câmbio!

– Então é o Roberto Jefferson? Câmbio!

– Positivo, chefia! Câmbio e desligo.

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