O homem-satélite

Véspera de feriadão, duas fontes precisam ser consultadas para viajar sem maiores sustos: o saldo bancário e o serviço de meteorologia. Este o mais importante, sem dúvida: se tempo é dinheiro, não há dinheiro que compre a garantia de bom tempo.

Hoje, é relativamente confiável fazer as malas e botar o pé na estrada, conforme os conselhos da moça do tempo ou o boletim do repórter do rádio. Sem intermediários, podemos também analisar as imagens do satélite. Maré baixa, maré alta, vento Sul ou Nordeste, está tudo na internet, sem faltar o GPS.

Mas houve um tempo em que o tempo em Curitiba só dependia de um homem: Oswaldo Iwamoto. O homem-satélite. Hoje professor aposentado da Universidade Federal do Paraná, no século passado, Iwamoto era o oráculo do tempo no Paraná. No dia 10 de outubro de 1975, digamos, todos os pauteiros e repórteres dos meios de comunicação batiam na porta do meteorologista. Não tinha outro.

– Professor Iwamoto – perguntava o repórter do Show de Jornal – teremos sol neste 12 de outubro, Dia das Crianças?

E entrava o Iwamoto no ar, tendo ao fundo uma cerquinha branca, a casinha e a antena de um posto meteorológico. Ao lado do professor, uma traquitana de lata para medir água da chuva.

– Segundo notícias vindas da Argentina (naquele tempo os deslocamentos atmosféricos eram acompanhados via rádio, telegrama ou escutando som de tambores), uma frente fria parece ter cruzado a fronteira do Rio Grande do Sul com Santa Catarina.

O parecer de Iwamoto interrompia qualquer preparativo para viajar, o telespectador ficava em suspense.

– Mas professor Iwamoto, vai ou não vai chover em Guaratuba, Caiobá e Matinhos?

– Teremos sol, com leves pancadas no final do período!

– Oba! – Abria um sorriso a apresentadora Laís Mann, para, em seguida, Jamur Júnior fazer uma careta perante as câmeras do Canal 4:

– Laís, não vou sair de casa nesse feriadão. E se sair, só de galocha!

As previsões meteorológicas do Iwamoto eram controvertidas. Metade da cidade acreditava piamente no nosso homem-satélite – sabe-se lá por que trombas d´água? -, outra metade tinha absoluta convicção de que o professor adivinhava o tempo molhando o dedo indicador com a boca, para, em seguida, apontá-lo para o céu e provar o sabor do vento.

Com seus prós e contras, é preciso reconhecer que o professor Iwamoto era a nossa única fonte para assuntos meteorológicos. Todo repórter tinha que ter o telefone do homem satélite na agenda. Assim como para assuntos de safra agrícola, o oráculo era Eugênio Estefanello. Trânsito, chamava-se o Marcos Prado. Assuntos trabalhistas, o nome obrigatório era o general Adalberto Massa. Abastecimento de carne, fala Luiz Carlos Setim. História era com o professor David Carneiro e o cinema passava pela opinião abalizada de Zito Alves, gerente do Cine Lido. Tinha, ainda, o ?Frangovo?, o veterinário Laércio Cardoso, que vivia no noticiário para reivindicar frango e ovo na merenda escolar.

Não é preciso ter saudades do Iwamoto. Apenas eram tempos bem mais divertidos. Chovesse ou fizesse sol, paciência. Importante era apostar na previsão do japonês, e ganhar ou perder uma cerveja na volta do feriadão.

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Onde estará Iwamoto? Em que gota de orvalho, em que nimbo ele se esconde? A última notícia nos diz que o homem-satélite é agora coordenador técnico da Fundação Cobra Coral, da médium Adelaide Scritori. Quando se dizia que Iwamoto era um assombro, só agora faz sentido.

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