
Célia, nossa assessora doméstica, entreabriu a porta para melhor ser ouvida:
Nova York está vindo abaixo!
E está passando na televisão…
Não acreditei no inacreditável. Apenas me lembrei do dia 17 de julho de 1975, quando nevou em Curitiba. Também estava dormindo e a cena se repetiu: Hilária, nossa antiga doméstica, também entreabriu a porta e me despertou para o que não era sonho:
Está nevando lá fora!!!
Também naquela manhã não acreditei no inacreditável. Julguei que fosse um ardil da falecida Hilária para fazer o jornalista madrugueiro levantar da cama mais cedo.
Em 17 de julho olhei na janela e vi um sonho. Em 11 de setembro olhei na televisão, a janela do mundo, e vi um pesadelo. Como se naquele exato momento estivesse vendo ao vivo e em cores o naufrágio do Titanic.
Em 2 de abril de 1831, o pensador francês Alexis de Tocqueville viajou aos Estados Unidos para escrever um de seus mais importantes estudos: De la démocratie en Amérique. No segundo volume da obra, Tocqueville faz da América um ponto de partida para reflexão geral sobre a democracia e o novo mundo que virá. Ele prevê o reinado da opinião pública, o predomínio do utilitarismo, a degradação da língua, profetiza o império do individualismo, o gosto do privado, vê a condição feminina progredir no sentido de igualdade e insiste que o culto ao dinheiro vai predominar. No campo político, Tocqueville alerta para o perigo que ameaça as sociedades ?demasiadamente satisfeitas? em que os cidadãos negligenciam os assuntos públicos, correndo o risco de os políticos ambiciosos se aproveitarem disso; ele encoraja o cidadão a vigiar os líderes e partidos políticos que falam ?em nome de uma massa ausente e desatenta?.
Se assistimos pasmados, o pensador francês ficaria mais pasmado ainda com o futuro da América depois do 11 de setembro: nos aeroportos, um vidro de perfume é a terrível arma de destruição; os cidadãos descobriram que milhões de conversas telefônicas estão sendo gravadas em nome da segurança nacional; dados pessoais estão sendo colocadas à disposição das autoridades; as empresas de cartão de crédito fornecem os extratos de compras dos consumidores para a CIA; a passageiros nos metrôs e ônibus, revistas ilegais foram impostas; detectores de metais estão em edifícios, teatros, cinemas e locais de trabalho; as liberdades individuais estão sendo cada vez mais reduzidas.
?O governo americano praticou mais atos contra a democracia nos Estados Unidos do que qualquer terrorista conseguiria. O pior é que faz ilegalmente muitas coisas que poderia fazer legalmente.?, afirma John Guershman, professor da Universidade de Nova York.
Se Aléxis de Tocqueville retornasse hoje à América, poderia concluir que Osama bin Laden só está ainda vivo em nome do terrorismo do Estado. O mito serve para George W. Bush suprimir os direitos individuais e ameaçar o mundo com o uso da força.
Barbas brancas, gestos de pastor e com um fuzil AK-47 na mão, Osama bin Laden não pode morrer. Para os terroristas de Washington, a ameaça do apocalipse é um ótimo negócio.