O homem que não pode morrer

Onde você estava em 11 de setembro de 2001, o dia que ainda não acabou? Há cinco anos, naquela manhã em que Osama bin Laden assistiu pela televisão os seus tentáculos derrubarem as duas torres gêmeas de Nova York, confesso que eu estava dormindo. Eu dormindo, e o mundo acordando para um pesadelo que ainda não está nem perto de terminar.

Célia, nossa assessora doméstica, entreabriu a porta para melhor ser ouvida:

Nova York está vindo abaixo!

E está passando na televisão…

Não acreditei no inacreditável. Apenas me lembrei do dia 17 de julho de 1975, quando nevou em Curitiba. Também estava dormindo e a cena se repetiu: Hilária, nossa antiga doméstica, também entreabriu a porta e me despertou para o que não era sonho:

Está nevando lá fora!!!

Também naquela manhã não acreditei no inacreditável. Julguei que fosse um ardil da falecida Hilária para fazer o jornalista madrugueiro levantar da cama mais cedo.

Em 17 de julho olhei na janela e vi um sonho. Em 11 de setembro olhei na televisão, a janela do mundo, e vi um pesadelo. Como se naquele exato momento estivesse vendo ao vivo e em cores o naufrágio do Titanic.

Em 2 de abril de 1831, o pensador francês Alexis de Tocqueville viajou aos Estados Unidos para escrever um de seus mais importantes estudos: De la démocratie en Amérique. No segundo volume da obra, Tocqueville faz da América um ponto de partida para reflexão geral sobre a democracia e o novo mundo que virá. Ele prevê o reinado da opinião pública, o predomínio do utilitarismo, a degradação da língua, profetiza o império do individualismo, o gosto do privado, vê a condição feminina progredir no sentido de igualdade e insiste que o culto ao dinheiro vai predominar. No campo político, Tocqueville alerta para o perigo que ameaça as sociedades ?demasiadamente satisfeitas? em que os cidadãos negligenciam os assuntos públicos, correndo o risco de os políticos ambiciosos se aproveitarem disso; ele encoraja o cidadão a vigiar os líderes e partidos políticos que falam ?em nome de uma massa ausente e desatenta?.

Se assistimos pasmados, o pensador francês ficaria mais pasmado ainda com o futuro da América depois do 11 de setembro: nos aeroportos, um vidro de perfume é a terrível arma de destruição; os cidadãos descobriram que milhões de conversas telefônicas estão sendo gravadas em nome da segurança nacional; dados pessoais estão sendo colocadas à disposição das autoridades; as empresas de cartão de crédito fornecem os extratos de compras dos consumidores para a CIA; a passageiros nos metrôs e ônibus, revistas ilegais foram impostas; detectores de metais estão em edifícios, teatros, cinemas e locais de trabalho; as liberdades individuais estão sendo cada vez mais reduzidas.

?O governo americano praticou mais atos contra a democracia nos Estados Unidos do que qualquer terrorista conseguiria. O pior é que faz ilegalmente muitas coisas que poderia fazer legalmente.?, afirma John Guershman, professor da Universidade de Nova York.

Se Aléxis de Tocqueville retornasse hoje à América, poderia concluir que Osama bin Laden só está ainda vivo em nome do terrorismo do Estado. O mito serve para George W. Bush suprimir os direitos individuais e ameaçar o mundo com o uso da força.

Barbas brancas, gestos de pastor e com um fuzil AK-47 na mão, Osama bin Laden não pode morrer. Para os terroristas de Washington, a ameaça do apocalipse é um ótimo negócio.

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