Moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, com os costumeiros odores pairando no ar: se não é o cheiro de pizza, é a fedentina do golpe político.
Nos últimos dias, quem primeiro exalou os vapores de golpe foi Luiz Inácio Lula da Silva, devidamente apurado pelo sensível olfato do jornalista Elio Gaspari. Durante um jantar em São Paulo, o presidente em vias de reeleição confessou que gostaria de fechar o Congresso.
Ao responder ao empresário Eugênio Staub sobre como pretendia fazer as reformas necessárias ao País, Lula deitou-se no sofá e abriu a alma ao companheiro Freud:
– Staub, não acorde o demônio que tem em mim, porque a vontade que dá é fechar esse Congresso e fazer o que é preciso.
E por que não? Luiz Inácio só estaria mantendo uma antiga tradição. O Congresso Nacional já foi fechado sete vezes: 1823, 1889, 1930, 1937, 1966, 1968 e 1977.
Assim que repercutiu a nota de Gaspari, com o título de ?Demônio golpista?, o Planalto divulgou nota à imprensa afirmando que o presidente jamais fez qualquer ?ameaça ou hipótese de restrição ao livre, pleno e soberano funcionamento do Congresso Nacional?.
Ontem, a jornalista Miriam Leitão deu mais detalhes do ?ato falho?. A frase foi ouvida por várias pessoas, dentro de uma resposta indignada a um empresário que comparou o Brasil com o sucesso da China: ?Um absurdo. A China não tem greve, não tem previdência, não tem Congresso. Aqui também, se fosse assim… Eu adoraria. Seria muito mais fácil?.
No dia seguinte ao jantar, a Polícia Federal tornou público o episódio do petista preso com R$ 1,7 milhão, que seria usado na compra de dossiê contra os tucanos José Serra e Geraldo Alckmin.
O Ministério Público Federal pediu a prisão do assessor presidencial Freud Godoy; a oposição clama pela cassação do presidente; os governistas denunciam que os demônios da direita tramam um golpe para derrubar o presidente.
O golpe paira no ar.
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O escritor Jamil Snege tinha como candidato preferido a deputado o artista plástico Rogério Dias. E escreveu porque: ?Rogério Dias, nascido no norte do Paraná, cedo perdeu o rumo e veio para Curitiba. Escultor e pintor, é o único sujeito que pega AM e FM ao mesmo tempo, isso quando não mistura as estações de uma mesma faixa. Extremamente versátil, tem uma grande vantagem sobre os outros candidatos: funciona a eletricidade e a pilha?.
Rogério Dias é também um grande pensador, com uma teoria de como começa e termina a democracia no Brasil.
Dizia Rogério aos seus passarinhos:
– Vai o presidente para a televisão e anuncia ao povo que ?todo cidadão terá direito a um sanduíche com manteiga e uma salsicha?.
Dali a uma semana um ministro corrige: ?Todo cidadão realmente terá direito a um sanduíche com uma salsicha. Menos a manteiga, devido ao déficit da previdência?.
Dias depois, um outro ministro revela que a balança de pagamentos forçou uma pequena mudança no planejamento: ?Todos terão direito à salsicha, mas, infelizmente, agora acompanhada de apenas meio pão?.
Em edição extraordinária, a televisão mostra a entrevista coletiva do porta-voz do Planalto: ?Para conter a inflação, o governo vai ter que apertar os cintos. Assim sendo, vamos cortar o meio pão. Só fica a salsicha?.
A imprensa critica em editoriais, em todo o País o clamor é grande e inútil: como medida extrema, o governo corta também a salsicha, forçado pelos banqueiros que exigem a manutenção das altas taxas de juro.
Segundo Rogério Dias, uma salsicha não basta para uma revolução, uma guerra civil. Os estudantes correm às ruas, as donas-de-casa batem panelas, a oposição esperneia e o governo, em vista dos graves acontecimentos, chama as forças de segurança e distribui bolacha para todo mundo.