Até os postes sabem que numa campanha eleitoral todos ouvem o galo cantar, mas poucos sabem onde. Onipresentes, só os postes conhecem as almas das ruas, sabem o que se murmura nas esquinas, e aonde o galo canta. Do alto, eles observam quem entra e quem sai, quem vai e quem volta, quem sobe e quem cai, quem conspira, quem trai e o poleiro do galo. Unidos por tantos fios, postes tudo ouvem, tudo vêem, tudo sabem. Até os postes sabem que daqui pra frente só ouviremos choro e ranger de dentes e muito sangue na rinha.
Justamente faltando uma semana para o início do feriadão de finados, voltamos a conversar com o poste em frente ao Bar dos Passarinhos. Ele nos concedeu uma iluminada entrevista, enquanto sustentava energia elétrica para a Igreja dos Passarinhos, no Bigorrilho, bairro que os emergentes denominam Champagnat, para efeito de pose e cartão de visita.
PERGUNTA – Vou começar a entrevista com a mesma pergunta de nossa última entrevista: o senhor tem visto a dona Nice Braga?
POSTE – Então renovo a antiga resposta: como de costume, antes e depois das missas do padre Gabriel Figura, tenho iluminado os passos desta simpática e elegante senhora. Ela e o Nelson Comel, meus fregueses de luz, desde os tempos do saudoso padre João.
P – Quem já ganhou a eleição?
POSTE – O futuro ao subterrâneo pertence. Homens e postes, hoje estamos verticais, amanhã horizontais; quando todos os condutores se estenderão abaixo da superfície. Eu levo a luz; não levo à luz. Por enquanto, não posso adiantar quem já ganhou. Só posso dizer quem já perdeu: os institutos de pesquisa. O Ibope, principalmente. Se fosse delegada ao Ibope a tarefa de imprimir calendários, ele diria que estamos no ano de 2004, com uma margem de erro de quatro anos, para mais ou para menos.
P – Nesta última semana, a campanha eleitoral tomou jeito de filme americano: muito efeito especial, muita pauleira e muito sangue derramado. A que se atribui tamanha violência? Aos marqueteiros?
Poste – Até os postes sabiam disso, antes da prisão do marqueteiro Duda Mendonça. Está no jornal e agora todo mundo sabe: “O marqueteiro Duda Mendonça, responsável pela campanha do PT em São Paulo, foi detido na noite de hoje durante uma operação da Polícia Federal de repressão às rinhas de galo no Rio de Janeiro”. Briga de galo e campanha eleitoral, tudo a ver. E nisso o marqueteiro baiano é especialista, segundo confessou logo após a prisão: “Até os postes sabem que eu gosto de rinha de galo e que esse é o meu hobby”.
P – E o marqueteiro baiano pode ser preso?
Poste – Caro repórter, até os postes conhecem aquela velha piada do fiscal do Ibama que recebe uma denúncia e vai verificar. Dirige-se à casa de um caipira. Chegando no local, sem se identificar, vai logo travando um diálogo:
Fiscal: Bom dia.
Caipira: Bom dia.
Fiscal : Como vai a luta?
Caipira: Difícil.
Fiscal : Tem caçado muito?
Caipira: Tenho, a semana passada matei 20 periquitos.
Fiscal : Vinte?
Caipira: Filho, traz as cabeças dos periquitos pro homem ver.
Fiscal : E paca, tem caçado muito?
Caipira: Só uma esta semana. Filho, traz a cabeça da paca.
Fiscal : E outros animais silvestres, tem caçado muito?
Caipira: Vários deles. Filho, traz as cabeças dos outros bichos pro homem ver.
Fiscal : Não tem passado por aqui nenhum fiscal do Ibama?
Caipira: Sim, semana passada. Filho… traz a cabeça do fiscal para o homem ver.
Fiscal: Até outro dia. Obrigado pela atenção.
Caipira: Não tem de quê. Volte sempre!
P – Esse lamentável episódio das rinhas de galo foi um tombo para a Marta Suplicy?
Poste – Só não foi maior que do tombo do Fidel Castro.
Até quarta-feira, véspera do final do horário eleitoral. Uau!