
Para a grande senhora que se afastou com toda a elegância, prêmios, aplausos e inesquecíveis personagens nunca faltaram; inclusive grandes papéis na vida real.
Fora do palco, uma das grandes interpretações de Lala Schneider ocorreu na esquina do Teatro Guaíra com a Rua XV de Novembro.
Era fevereiro de 1980, véspera de estréia da peça Drácula, no Auditório Salvador de Ferrante. Lala Schneider interpretava Edvirge, a governanta. Ariel Coelho, que fora do palco já era o próprio, fazia o papel de Conde Drácula. Luiz Mello apavorava como Dr. Frankenstein. Emílio Pitta criou perfeito corcunda chamado Simon, o cocheiro. Odelair Rodrigues era a cozinheira, Sansores França o mordomo. Ivone Hoffmann era a copeira Aurora, Gina Pigozzi era a arrumadeira Sybill – duas gracinhas com dois pescoços que fariam a felicidade de qualquer vampiro de Curitiba. Antônio Carlos Kraide assinava a direção; Beto Bruel a iluminação; cenários de Fernando Marés e Paulo Maia; os figurinos de Luiz Afonso Burigo.
Lala Schneider tinha então um Volkswagem TL verde. Naquela noite de ensaio geral de figurinos e maquiagens, a grande dama estacionou o TL na esquina do Teatro Guaíra e foi para os camarins já preparada para a jornada de trabalho noite a dentro.
Era bem madrugada quando o guardião do Teatro Guaíra interrompeu o beijo do Drácula aos gritos:
– Lala, corre que um Fusca desgovernado destruiu o teu carro!
Foi uma correria. Solidários, todos do elenco dispararam do palco em direção à esquina do teatro: a governanta Edvirge à frente, o Conde Drácula atrás e o terrível Dr. Frankenstein seguido pelo tétrico mordomo. Fazendo fileira, esbaforidas, a copeira, a cozinheira e a arrumadeira. Emílio Pitta, o corcunda que babava pelo canto da boca, foi o último a chegar junto ao Fusca afundado na lateral do TL verde de Lala Schneider.
Foi uma coisa medonha.
A arrumadeira Edvige, com as mãos na cabeça, não acreditava no que estava vendo. Muito menos o motorista, cercado pelo Conde Drácula, o Dr. Frankenstein, um mordomo assassino, três domésticas histéricas, e aquele baixinho corcunda que lhe pedia os documentos.
Completamente aterrorizado, o motorista se escafedeu em direção ao Passeio Público e nunca mais foi visto. O Fusca foi recolhido ao Detran e o TL verde de Lala Schneider virou personagem de uma das mais inesquecíveis cenas do teatro paranaense, fora do palco.