O Fusca, a dama e o Drácula

Na manhã de quarta-feira passada, a atriz Lala Schneider foi chamada para o elenco do Grande Teatro Celestial. Deixou para trás o teatro que leva o seu nome e a grande platéia que restou muda com a súbita mudança de cenário da grande dama. Lala morreu com belos 80 anos, dormindo feito passarinho, numa fase da vida que fazia também o papel de matriarca da nova geração de atores, atrizes e diretores.

Para a grande senhora que se afastou com toda a elegância, prêmios, aplausos e inesquecíveis personagens nunca faltaram; inclusive grandes papéis na vida real.

Fora do palco, uma das grandes interpretações de Lala Schneider ocorreu na esquina do Teatro Guaíra com a Rua XV de Novembro.

Era fevereiro de 1980, véspera de estréia da peça Drácula, no Auditório Salvador de Ferrante. Lala Schneider interpretava Edvirge, a governanta. Ariel Coelho, que fora do palco já era o próprio, fazia o papel de Conde Drácula. Luiz Mello apavorava como Dr. Frankenstein. Emílio Pitta criou perfeito corcunda chamado Simon, o cocheiro. Odelair Rodrigues era a cozinheira, Sansores França o mordomo. Ivone Hoffmann era a copeira Aurora, Gina Pigozzi era a arrumadeira Sybill – duas gracinhas com dois pescoços que fariam a felicidade de qualquer vampiro de Curitiba. Antônio Carlos Kraide assinava a direção; Beto Bruel a iluminação; cenários de Fernando Marés e Paulo Maia; os figurinos de Luiz Afonso Burigo.

Lala Schneider tinha então um Volkswagem TL verde. Naquela noite de ensaio geral de figurinos e maquiagens, a grande dama estacionou o TL na esquina do Teatro Guaíra e foi para os camarins já preparada para a jornada de trabalho noite a dentro.

Era bem madrugada quando o guardião do Teatro Guaíra interrompeu o beijo do Drácula aos gritos:

– Lala, corre que um Fusca desgovernado destruiu o teu carro!

Foi uma correria. Solidários, todos do elenco dispararam do palco em direção à esquina do teatro: a governanta Edvirge à frente, o Conde Drácula atrás e o terrível Dr. Frankenstein seguido pelo tétrico mordomo. Fazendo fileira, esbaforidas, a copeira, a cozinheira e a arrumadeira. Emílio Pitta, o corcunda que babava pelo canto da boca, foi o último a chegar junto ao Fusca afundado na lateral do TL verde de Lala Schneider.

Foi uma coisa medonha.

A arrumadeira Edvige, com as mãos na cabeça, não acreditava no que estava vendo. Muito menos o motorista, cercado pelo Conde Drácula, o Dr. Frankenstein, um mordomo assassino, três domésticas histéricas, e aquele baixinho corcunda que lhe pedia os documentos.

Completamente aterrorizado, o motorista se escafedeu em direção ao Passeio Público e nunca mais foi visto. O Fusca foi recolhido ao Detran e o TL verde de Lala Schneider virou personagem de uma das mais inesquecíveis cenas do teatro paranaense, fora do palco.

Grupos de WhatsApp da Tribuna
Receba Notícias no seu WhatsApp!
Receba as notícias do seu bairro e do seu time pelo WhatsApp.
Participe dos Grupos da Tribuna