O furacão PTrina

Tropas públicas começam a operação de retirada forçada de Brasília, uma caçada de porta a porta a políticos que insistem em ficar na cidade destruída pelo furacão PTrina, enquanto as águas que baixam começam a revelar a extensão já imaginada da tragédia. Centenas de corpos foram achados nos gabinetes da Câmara dos Deputados e há relatos de mais cadáveres insepultos no Congresso Nacional.

A imprensa vem publicando relatórios da tragédia, afirmando que as pessoas correm perigo por causa das toxinas presentes no mar de lama e que a Capital Federal precisa estar vazia para a operação de limpeza. No bairro boêmio, onde se reúnem jornalistas, que foi razoavelmente poupado da tragédia, os mais bem informados aumentaram a pressão para que os moradores abandonem a cidade.

– Eles vieram aqui na noite passada e disseram que tínhamos que levantar o traseiro daqui – disse um músico que se preparava para botar a viola no saco.

Cadáveres em decomposição continuam espalhados pelos corredores do Congresso. ?Um corpo na rampa do Palácio do Planalto pode não chocar. Depois do furacão PTrina, há certamente dezenas, provavelmente centenas. O que é extraordinário é que, sala presidencial, um cadáver possa se decompor durante dias, apodrecendo, e isso seja aceitável?, relata o deputado Fernando Gabeira, descrevendo a situação surreal em que a cidade se encontra. Pelo corpo putrefato em questão, passaram vários deputados do PT, enquanto os repórteres observavam – e o máximo que fizeram foi o sinal da cruz.

– ?Bem-vindo à Brasília pós-apocalipse, meio cozida, meio alagada, pestilenta, assustadora e artificialmente quieta?, diz um cartaz na porta do gabinete do senador Jorge Bornhausen.

Equipes de resgate amarraram corpos que boiavam nas margens do Lago Paranoá, para buscá-los depois. Um necrotério montado próximo à Catedral de Brasília estava de prontidão para receber centenas de cadáveres insepultos denunciados pelas CPIs dos Correios, Mensalão e do Bingo.

Onze corpos foram achados na Granja do Torto, um dos locais mais duramente atingidos pela lama. Segundo o deputado Gustavo Fruet, um outro time de futebol foi resgatado do local – meses depois da passagem do furacão PTtrina.

Membros da CPI dos Correios estimam que talvez muitos saquedores continuem na cidade inundada, numa sopa de lixo, óleo, esgoto e corpos boiando. Os sobreviventes estão sem vergonha na cara, sob calor intenso, por mais de um mês. E muitos deles não estão dispostos a cooperar, apesar de o presidente da CPI, deputado Delcídio Amaral, ter autorizado o uso de força na retirada dos envolvidos na maior tragédia da história brasileira .

– Os que não querem que os encontremos se escondem -diz um membro da CPI, cansado de tanto ouvir as mesmas mentiras dos envolvidos no Ptrina.

O deputado José Dirceu não tem para onde ir e quer ficar em casa para proteger o que lhe restou.

– Se vou ser miserável, melhor ser um miserável bem aqui – disse o ex-guerrilheiro.

Até mesmo o desfile de 7 de setembro foi esvaziado, com o presidente Lula recebendo muitas vaias. Mesmo assim, Lula declarou em rede nacional de televisão que ?as turbulências não tirarão o governo do rumo?. Disse mais, com o palanque armado no meio do lodo: ?A economia cresce, a indústria cresce, o comércio cresce, a exportação cresce, o salário cresce?. O presidente só não se referiu aos saques nos cofres públicos que também cresceram embaixo de suas barbas.

Com o desmoronamento dos partidos, é urgente a evacuação da Câmara dos Deputados, onde o presidente Severino Cavalcanti foi encontrado em adiantado estado de putrefação na cozinha do restaurante Fiorella. ?Se não queimarmos o cadáver do cabra, a cólera se alastra pelo resto do País? – disse o deputado Gabeira, ao inspecionar o gabinete do finado Severino, que exalava um insuportável odor de propina.

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