O Estado são eles

Recebi do dr. Paulo Roberto de Andrade Mercer e passo adiante (uma parte), com esse bilhete: "Saiu no O Cruzeiro em setembro de 1959. Eu tinha quase oito anos e recordo que, em casa, meus pais liam religiosamente a coluna da Raquel de Queiroz. Era sempre comentada. Claro, eu gostava mesmo era dos desenhos do Péricles, o "Amigo da Onça". O texto tão atual, apesar de quase meio século, faz-nos refletir sobre a pobreza do ser humano, com relação à política no nosso meio. Grande Raquel de Queiroz!".

No céu claro passaram roncando dois enormes aviões. Pelo feitio ou pela pintura os rapazes conheceram que era da FAB. E um deles, que ouvira o rádio do jipe, explicou: -É o marechal, que vai ao Cariri fazer propaganda eleitoral. Lembrou-me a minha velha mestra de música, Dona Elvira Pinho, abolicionista e republicana histórica, mulher de rígida virtude particular e cívica. Uma de suas alunas era filha do governador e vinha para as aulas no carro oficial.

E D. Elvira interpelava a garota, em plena classe: "Como vai o nosso automóvel?. Você tem agradecido aqui às meninas o empréstimo do carro para você passear?

Sim, porque tanto o automóvel como o motorista, a gasolina, tudo é nosso – nós que pagamos!".

A menina ficava encabulada ou furiosa, não sei, e Dona Elvira, abandonando a teoria musical, dava uma aula de boa ética republicana.

Que tudo pertence ao povo, pois quem paga é o povo.

Os governantes que gastam conseguem o dinheiro dos contribuintes, estão usurpando essas regalias – aliás, a própria palavra está dizendo: regalia – privilégio do rei!

República não tem rei e, assim, os governantes republicanos não deviam ter palácios para as suas famílias nem carros oficiais para passear os meninos, nem comida e luxo à custa do povo.

Tudo isso abolimos no 15 de novembro, mas tudo tem voltado – só falta voltar o rei! (como era uso entre os republicanos históricos, D. Elvira só chamava o imperador "o rei"). Até a ditadura ainda havia certo pudor. Talvez porque ainda restassem vivos muitos republicanos da cepa de D. Elvira.

Com o Estado Novo, todo o mundo amordaçado, sem ninguém para estrilar, o hábito da regalia se universalizou. Os homens públicos deixaram de separar o que era do Estado e o que era deles, ou antes, o uso e abuso dos bens públicos passaram a ser privilégio dos cargos e, por extensão natural, da parentela dos cargos.

Ninguém se lembra mais da origem do dinheiro com que se custeia o luxo dos poderosos – aqueles ínfimos impostos que o pobre mais pobre tem que pagar: o cruzeiro a mais no preço do feijão, da farinha, do metro de pano, a licença para vender um pé de alface ou um chapéu de palha.

Talvez se esses aproveitadores da riqueza pública – e entre eles haverá muitos homens honestos – se detivessem um instante a pensar de que pobreza, de que miséria, provém aquela riqueza, que não foi para tal fim que a arrancaram ao triste contribuinte. (…)

Se eles pensassem, talvez recuassem envergonhados, e devolvessem o seu a seu dono. Mas eles não se lembram. Vêem apenas o dinheiro fácil, abundante, bom de gastar. Dizem que se um não gastar, outro gasta.

E, acima de tudo, convencem-se de que eles próprios e os seus é que representam o Estado, e que emprego da fazenda pública em regalias pessoais para os que encarnam o Estado é tão legítimo quanto os gastos em ordenados de professoras, em remédios para os ambulatórios.

Aqueles dois aviões, gastando material, gasolina e pessoal, tudo pago pelo povo, para que um candidato faça a sua propaganda, sei que é uma gota de água na torrente dos gastos indevidos de dinheiros públicos, mas são um símbolo, ou uma amostra de como anda completamente desvirtuado aquilo que se pode chamar o pacto de governo, feito entre o povo e os seus líderes. (…)

Rachel de Queiroz

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