O espião palaciano

O governo Lula está se tornando um grande mistério. E não só misterioso quanto aos resultados administrativos, que estes estão sendo desvendados conforme o tempo passa, conforme o tempo voa. O maior dos mistérios é o que se passa nos corredores palacianos, coisa que os analistas políticos chamam de “as entranhas do poder”.

Entre tantos, já tivemos o “Mistério do Waldomiro”, depois o “Mistério dos Vampiros” e agora estamos tentando decifrar o “Mistério do Espião”. E onde se lê “Mistério” leia-se “Ministério”, faz o mesmo sentido.

Cenas do capítulo anterior: dois agentes da espionagem palaciana estariam seguindo orientações de um jornalista-espião que trabalha no quarto andar do Palácio do Planalto e que receberia remuneração para contar o que acontece nos bastidores do poder. A novidade deste novo folhetim é que o suspeito não é o mordomo; é um jornalista que, por R$ 10 mil em luvas para pagar dívidas e R$ 2.500 por mês a título de prolabore, juntou-se a dois ex-agentes do SNI para vasculhar o que o ministro Zé Dirceu e a prefeita Marta Suplicy escondem sob os tapetes. O incrível desta novela é que já se conhece tudo sobre o espião, do andar em que ele trabalha aos trinta dinheiros da remuneração, e ninguém ainda conseguiu capturar o facínora. Sabe-se também que a espionagem teria sido descoberta há dois meses e, mesmo assim, o palácio ainda tenta sem sucesso identificar o espião. Em suma, até os postes de Brasília sabem de quem se trata.

Só o Lula não sabe. Tanto, que ele agora “quer rigor na investigação” e punição a esse homem-bomba entrincheirado no quarto andar palaciano. Os estragos foram muitos e graças ao espião acabamos de ficar sabendo, por exemplo, que o fotógrafo particular do marido da dona Marisa está lançando um “colloridíssimo” álbum só com fotos do presidente. Um luxo só. Quatro empresas foram con-vo-ca-das para pagar a altíssima fatura do livro de fotos oficiais assinado pelo fotógrafo Ricardo Stuckert e que terá a arrecadação com as vendas revertida ao Fome Zero. Os patrocinadores serão a Daimler Chrysler, o banco Santander, o grupo Suzano e a Valisère, de calcinhas e sutiãs.

Esse patrocínio, e conseqüente arrecadação para o Fome Zero, é do tipo “me engana que eu gosto”, como escreveu a colunista Danusa Leão, retratando o grande mico que foi o arraiá do Torto, no sábado passado, quando os convidados foram convocados a levar uns “conosquinhos”, para dividir despesas. Danusa pediu e deu explicações: ” Foi um vexame atrás do outro, em nome de uma economia sem sentido, tipo me engana que eu gosto. Então é preciso que alguns empresários rachem a reforma das goteiras do Palácio da Alvorada para mostrar o quanto são parcimoniosas as despesas palacianas?”. Escreveu mais, a Danusa: “O arraiá foi de uma breguice difícil de ser superada, mas não vamos perder as esperanças: até o fim do mandato eles talvez consigam”.

Não se sabe se o livro de retratos do Lula vai vender tanto quanto esperam os necessitados do Fome Zero. Mas se o vendedor for aquele famoso gago da bíblia, vende horrores. O gago da bíblia era um sujeito que conseguiu bater o recorde mundial de vendas da bíblia. O fenômeno teve repercussão mundial e quando o gago foi entrevistado pelo The New York Times, assim explicou sua técnica de vendas:

– E…eee…uuu che…che..chego na… na… ca…ca…casa da…da… das pe…pessoas e ba…ba…bato na…na… po…po…porta. Aí e…e…eu pe…pe…pergunto: va…va…vai co…co…comprar ou quer que eu leia?

Maldito jornalista-espião. Agindo dentro da trincheira governista, só pode ter sido ele que inspirou o discurso de Lula ao secretário-geral da ONU, na tarde de ontem:

– Combinei com o companheiro Kofi Annan – disse Lula -, vamos fazer umas reuniões em Nova Yorque para trocar armas por comida. Vamos investir no Fome Zero todo dinheiro dessas “guerras desnecessárias”. Já falei isso pro meu amigo Zapatero.

Até sexta-feira, e ficamos de combinação: existem guerras necessárias e desnecessárias. E é preciso falar também para o amigo barbeiro, o amigo verdureiro, o amigo…

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