O que leva um herdeiro de uma das maiores fortunas da Europa, elegante, culto e apaixonado por livros, a se engajar na luta política a ponto de morrer com uma bomba nas mãos no transcurso de um fracassado atentado terrorista?
No dia 15 de março de 1972, um corpo foi encontrado sob uma torre de eletricidade nos arredores de Milão. No dia seguinte, os jornais italianos explodiram manchetes: o desconhecido era na verdade um dos homens mais famosos e ricos da Europa – Giangiacomo Feltrinelli, o milionário que ainda jovem se tornou membro do Partido Comunista Italiano e foi fundador da editora e livrarias que levam seu nome.
Feltrinelli – Editor, aristocrata e subversivo, escrito pelo próprio filho, Carlo Feltrinelli, é um livro – 389 páginas, Editora Conrad – que nos faz incluir o personagem na lista de nossos tipos inesquecíveis.
Nascido em 1926, neto de milionário, filho de bilionário, Giangiacomo foi criado de forma aristocrática, com governantas e mordomias nos castelos da família. Falava quatro línguas e até 1941 não freqüentou escolas, só recebia aulas particulares. Ao assumir os negócios da família com a morte prematura do pai, Giangiacomo Feltrinelli retirava fortunas de um bolso para financiar o comunismo internacional e, do outro, os investimentos para fundar nos 50s o Instituto Feltrinelli e famosa editora, que foi buscar na Rússia o maior best-seller do período pós-guerra – Doutor Jivago, de Boris Pasternak -, numa emocionante e arriscada trama, sem o consentimento das autoridades soviéticas. Romance do romance, poderia ser o título das relações entre Feltrinelli e Pasternak, que nunca chegaram a se conhecer pessoalmente. Se comunicavam através de cartas clandestinas.
No entorno do tormentoso ano de 1968, enquanto o ousado homem de negócios aumentava ainda a fortuna pessoal, o revolucionário na clandestinidade encontrava tempo para ser preso na Bolívia, em busca de Che Guevara. Tudo sem abrir mão de paradisíacas viagens em iates, férias em seu castelo no Lago de Garda, temporadas de caça nas montanhas, mulheres lindas e sofisticadas, os mais finos salões da nobreza e muito glamour.
***
Na tentativa de publicar uma biografia de Fidel Castro, que nunca se realizou, Feltrinelli se tornou amigo do ?Barba Máxima?. A descrição do próprio Giangiacomo de como foram seus contatos com o ?Comandante?, entre 1964 e 1965, é um raro retrato de Fidel.
?Tenho sentimentos confusos em relação a esse homem. Ele é uma espécie de Garibaldi, absolutamente inepto para o trabalho governamental, incapaz de trabalhar, raciocinar e ter opiniões embasadas. Impulsivo e retórico. Exaltado. Por exemplo, sobre a questão de Partido e Estado (não acredito que, na prática, as coisas sejam como ele diz). Considero-o mal informado, confunde a atitude de denúncia polêmica com a realidade. Nunca pede notícias, parece uma pessoa tão segura de si, das coisas aprendidas ao acaso e grudadas na mente, dos clichês ouvidos, não adianta falar com ele. Não presta atenção.
(…) Fidel não tem idéias originais: ninguém as pede a ele, nem ele pretende oferecê-las. Ele mesmo disse isso muito bem: o dom que possui é a esperteza política, ou, dizendo de forma mais gentil, a perspicácia revolucionária. Ou seja, um conjunto de fatos práticos que a memória pode reproduzir em todas as suas nuances. Ele é, vamos defini-lo assim, um intelectual da ação – não um filósofo ou pensador.?
***
É apenas impressão, ou conhecemos um outro personagem, abaixo do Equador, com características semelhantes?
***
Giangiacomo foi enterrado na faraônica capela da família do cemitério Monumentale de Milão. O caixão do subversivo foi acompanhado por bandeiras vermelhas, punhos cerrados, helicópteros do exército, oito mil pessoas e outro tanto de policiais. Com um megafone, Regis Debray lembrava que Giangiacomo Feltrinelli tinha amigos no mundo inteiro.