– Doutor, sabe o Kléberson? Pois é. Ele disse que só em Brasília a ficha caiu. No meio do povão, foi quando sentiu que somos penta e que tinha proporcionado uma grande alegria ao povo brasileiro. Comigo foi diferente. A ficha só caiu mesmo quando acordei com esse vazio por dentro, uma ansiedade, uma dor no corpo, febre, tremedeira nas mãos, até desarranjo.

– Quando surgiram esses sintomas?

– Já na semana passada, depois do jogo com a Turquia. Começou com uma leve dor de barriga.

– Isso podia ter sido uma tensão pré-decisão. Certo desconforto com uma possível derrota. Uma lembrança recorrente da decisão na França, talvez.

– Também era isso, doutor. Mas como explicar esse vazio por dentro, essa ansiedade, essa depressão, essas dores no corpo?

– Quando isso se agravou?

– Tudo se agravou na segunda-feira, deitado no sofá da sala, enrolado na bandeira do Brasil. Eram três e meia da manhã. Foi quando liguei a televisão e caiu a ficha: a Copa do Mundo já era! E não tinha mais nenhum jogo pra assistir na madrugada. Aí começou o suor frio, a dor de barriga, a depressão, um vazio tomou conta por dentro. Um horror.

– E isso durou quanto tempo?

– Até nove horas, nove e pouquinho de terça-feira, quando o avião da seleção começou a sobrevoar Brasília. Fiquei então numa boa o resto do dia e da noite, assistindo a família Felipão subindo a rampa, o Vampeta dando cambalhotas, a encrenca no Rio de Janeiro, a madrugada paulista. Aí dormi na maior felicidade.

– E quando acordou, na quarta-feira?

– Novamente acordei lá pelas três e meia da madrugada, no mesmo sofá, enrolado na mesma bandeira. Liguei a televisão e caiu a mesma ficha: o Brasil é penta e na tevê nenhum jogo da Copa da Mundo. Voltou tudo: o suor frio, dores no corpo, a depressão, um vazio tomando conta por dentro. Um horror. Me explica, doutor, o que pode ser isso?

– Cientificamente, digamos que deve ser uma “depressão mental reativa paradoxal”.

– Paradoxal, o quê?

– Simplificando, é o sujeito que passa no vestibular. No dia seguinte, sofre de uma depressão que se segue a uma grande conquista. É o vazio do dia seguinte, após uma grande explosão de felicidade.

– Doutor, isto quer dizer que só Freud explica a conquista do penta?

– Mais ou menos: na excitação existe uma grande euforia, uma “fiesta”, termo que Freud foi buscar na língua espanhola, para descrever como se encontra a cabeça do sujeito. Essa “fiesta”, na psiquiatria, é um quadro maníaco. O pólo oposto da depressão. Quando o sujeito está em estado maníaco.

– Nesse caso, o Brasil inteiro, com essa mania de futebol, estava em “fiesta”, não só eu.

– Exatamente. Quando a pessoa entra em “fiesta”, explodem as luzes, as cores, o barulho da felicidade aumenta. O mundo fica pequeno…

– Sei, doutor: os bancos sempre estão fechados, o limite do cheque especial não tem limite, o crédito é ilimitado. Sempre fico bem mais bonito, muito rico, todas as mulheres me amam, a vida é uma “fiesta”.

– Exatamente: é a onipotência dentro do quadro maníaco. Mas chega o momento em que a festa acaba, o circo apaga a luz, fecham a cortina do espetáculo… e surge então a “depressão mental reativa paradoxal”.

– Doutor, quer dizer que estou sofrendo do mal do dia seguinte. Não tenho mais nada pra comemorar, caí na real, a “fiesta” acabou, não tenho mais jogos da Copa do Mundo na madrugada, o papo no escritório voltou à mesmice de sempre. E a vida continua…

– “Triste est omne animal post coitum, praeter mulierem et gallum”.

– No latim, doutor, nem ave-maria!

– Depois do coito, todo animal é triste, salvo a mulher e o galo.

– Em português bem claro, doutor: o meu caso é grave? O que o senhor aconselha?

– Não é nada grave, 170 milhões de brasileiros estão com o mesmo problema. O que eu aconselho é encarar a realidade. Por exemplo: na quarta-feira começou a Copa dos Campeões. Uma boa terapia seria assistir as próximas rodadas. Um ou dois jogos por semana, sem exagerar na dose.

– Doutor, foi o que eu fiz na noite de quarta-feira. Assisti Fluminense e Náutico, zero a zero. Depois Atlético Mineiro e Vasco, 3 a 3. E pelo rádio, escutei o Atlético Paranaense perder para o Flamengo, 1 a zero.

– E então, melhorou?

– Doutor, não só piorei… como agora também estou tendo pesadelos.

Até domingo, quando estarei atendendo nessa mesma página e nesse mesmo sofá.

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