Em meio ao charco e ao mar de lama das manchetes, eis que o pioneiro jacaré do Barigüi emerge na imprensa com a notícia de que dois companheiros indesejáveis serão despejados do lago.
A novela da família jacaré é longa e se arrasta desde março de 2004, quando entrevistamos o nosso velho conhecido jacaré-do-papo-amarelo, que naquela ocasião ganhou a companhia de dois outros companheiros oriundos do Pantanal. Segundo notícia que nos chega, a secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) solicitou autorização ao Instituto Brasileiro do meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) para o resgate e conseqüente expulsão dos dois répteis pantaneiros. Ao contrário do pioneiro jacaré-do-papo-amarelo, da ilustre família Cayman latirostris, os dois répteis da mesma estirpe Cayman, oriundos do Pantanal, não apresentaram seus passaporte ao prefeito Beto Richa e, portanto, encontram-se em situação irregular na municipalidade.
O nosso velho jacaré-do-papo-amarelo deve ser mantido com suas atuais prerrogativas por tempo de serviço, por se tratar de personagem da cidade já tombado pelo Patrimônio Histórico e perfeitamente adaptado aos hábitos curitibanos, inclusive no sotaque leitE quentE. Quanto aos dois hóspedes indesejáveis, que ainda não se identificaram nem quanto AO sexo – suspeita-se que sejam metrossexuais -, eles serão removidos para águas outras e não sabidas.
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A decisão de expulsar os pantaneiros põe fim a uma longa demanda pelo poder, quando em 2004 travou-se uma ferrenha disputa pelo espaço político do lago. Entrevistado na época por este repórter, o jacaré do Pantanal foi taxativo:
– Precisamos deixar bem claro para a população de Curitiba que o papo-amarelo é de uma geração que está no poder há mais de três décadas. Precisamos oxigenar as águas do Barigüi, dar mais transparência e oportunidades aos outros segmentos da sociedade organizada do lago. Chega dos mesmos!
Já naquela época os intrusos protestavam contra a medida que hoje está sendo tomada pela municipalidade:
– Os técnicos estão pensando em nos despejar para um novo domicílio, uma falsa medida de prevenção para a segurança dos usuários do parque. São resquícios do autoritarismo. O papo-amarelo é adepto de artifícios antidemocráticos. Essa oligarquia dos papo-amarelo quer se perpetuar no poder. Eles não admitem entregar a rapadura, dar oportunidade às novas lideranças.
vvv
Na encharcada tarde de ontem, voltamos ao lago do Parque Barigüi para ouvir o pioneiro jacaré-do-papo-amarelo. Acompanhando o depoimento de Zé Genoino pela tevê Senado, o Cayman fez questão de esclarecer os motivos do despejo:
– O mar de lama é irrestrito e também atingiu nossas já insalubres águas. É do conhecimento de qualquer freqüentador do Barigüi que estes intrusos nasceram em cativeiro, na fazenda do Delúbio Soares. Enviados ao Barigüi, se alimentavam de um caixa 2 escondido sob o lodo, que veio à tona com a denúncia de um bagre ensaboado.
– Existem provas deste suposto caixa 2 que ameaça a cadeia alimentar do lago?
– Onde tem piranha, jacaré não anda de Land Rover, não fuma charutos Cohiba, e temos o depoimento de uma cobra d´água: os dois devassos contratavam farras com um bando de piranhas que aqui aportaram no bico de uma garça cafetina.
– Os técnicos da Prefeitura sabem que eles são oriundos da lagoa do Delúbio Soares, no Pantanal?
– Eles apenas suspeitavam que tinham sido abandonados por pessoas que os adquiriram ilegalmente, ainda no berço. São bípedes que não sabem o que fazer com um bicho enjeitado pela sociedade e os jogam em qualquer lugar.
– Confirmada a expulsão dos dois jacarés pantaneiros, a paz pode voltar a reinar nas águas do Barigüi?
– O preço da liberdade é a eterna vigilância: temos notícias de que estão planejando jogar aqui no lago não só o Fernandinho Beira-Mar, como também Paulo Maluf e família. Será um desequilíbrio ecológico sem precedentes, isso aqui vai virar uma Nova Orleans.