
Quando era diretor da sucursal da Gazeta Mercantil em Curitiba, o jornalista Valério Fabris contava com um motorista muito simpático, expedito, arguto, vivaz e de fino faro. Poderia ter sido jornalista, não fosse sua característica mais notável, a síntese absoluta na análise dos fatos. Seria uma rara virtude jornalística, não fosse o seu dicionário resumido numa única palavra: "Colosso!".
Valério Fabris é um melômano sofisticado. Carregava no carro do jornal uma coleção de fitas especialmente selecionadas. Numa das viagens, Fabris botou para rodar uma fita com o falecido promotor público Arthur Tramujas cantando sua poderosa versão de Summertime (… time, time / Child, the living’s easy).
– Seu Valério… um colosso!
De fato, a rara interpretação de Tramujas para o grande sucesso de Janis Joplin é um colosso, e agora existem algumas cópias remasterizadas rodando por aí em CD.
Num outro dia, a viatura do jornal parou num sinaleiro das imediações do Teatro Guaíra. Na faixa de pedestres, a bailarina Rita Pavão saindo do ensaio ainda de collant, linda, leve e solta.
– Seu Valério, olha que colosso!
Páscoa de 1995, no Estádio Couto Pereira o Coritiba F.C. goleou o Atlético Paranaense por 5 a 1. O atacante Brandão foi "o cara" do jogo. A pedagógica derrota foi o início de nova vida para o Furacão.
No carro da Gazeta Mercantil, um adesivo do Atlético se destacava, pois o motorista era atleticano fanático.
– Então, como foi o Atletiba de ontem?
– Seu Valério, perdemos de feio. Um colosso!
Quando a ministra Zélia Cardoso de Mello seqüestrou a poupança nacional para os cofres de Fernando Collor de Mello, só uma palavra para resumir a situação.
– Seu Valério, que colosso!
Era uma tarde nervosa de fechamento da edição diária, quando um pavoroso acidente matou uma criança e feriu gravemente a mãe, na esquina da Gazeta Mercantil, Rua Desembargador Motta com Alameda Princesa Izabel. As máquinas Olivetti pararam na redação, com a notícia da testemunha ocular!
– Seu Valério, pelo amor de Deus: foi um colosso!
Uma das últimas vezes que Valério Fabris falou com o seu motorista foi na manhã de 11 de setembro de 2001. Fabris atendeu ao telefone e, no outro lado da linha, ele:
– Seu Valério, está vendo na televisão as Torres Gêmeas? Um colosso, seu Valério. Um colosso!
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Em 1959, o cineasta Sergio Leone iniciou sua carreira com um filme que fazia filas nos nossos tempos de piá, com seriado antes e troca de gibis depois. O Colosso de Rodes, reaproveitando cenários de outras produções de época rodadas nos estúdios da CineCittá. É o filme menor do brilhante Sergio Leone. Dizia que fizera o filme apenas para pagar uma lua-de-mel na Espanha.
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Fazendo uma associação com o filme, assim lembrei o apelido do motorista de Valério Fabris, quando o encontrei dia desses no bar Ao Distinto Cavalheiro.
Rodes, este era o apelido do motorista do Valério Fabris. O apelido é um colosso de bom.
– Ou estou enganado, ou você era o secretário de Valério Fabris?
– Rever os amigos é um colosso!
Era o Rodes.
– Saudades do Valério Fabris! Aquele rapaz é um colosso!
– Pois é. Ele veio de Belo Horizonte para a festa em memória do Sergio Mercer!
– O Mercer, aquele era outro colosso!
Rodes pediu um chope no balcão e se acotovelou, quando um circunstante enveredou a conversa para as atualidades:
– A senadora Ideli Salvatti perdeu a oportunidade de ficar com o bico calado. Quebraram o sigilo bancário do caseiro Francenildo, botaram o saldo na vitrine e ainda assim ela teve a cara-de-pau de dizer que "qualquer um pode esquecer seu extrato bancário na rua ou em outro lugar qualquer".
Expedito, arguto, vivaz e de fino faro, Rodes continua colossal:
– Essa senadora catarina é um colosso!