O brasileiro não vota. Compulsoriamente, vai às urnas assinar um cheque em branco para eventuais candidatos. Do vereador ao senhor presidente da República, todos assumem, com um cheque ao portador, a ser descontado quando e onde quiser. Apuradas as urnas, nós eleitores, não somos convidados para o banquete, não escolhemos o cardápio, mas somos obrigados a pagar a conta, como acontece agora com a Comissão Especial da Câmara de Deputados, que analisa a reforma política. Essa comissão aprovou o projeto que estabelece o financiamento público de campanhas eleitorais. Você votou em algum candidato que tenha defendido esta tese no palanque?

Ainda no palanque, você ouviu de algum político que o INSS recalcula o “fator” previdenciário com base no estudo de expectativa de vida? Ou seja, assim que o IBGE anunciou que a expectativa de vida do brasileiro passou dos 70 anos, imediatamente o governo sacou da manga um tal de “fator” que faz com que o brasileiro, vivendo mais, logo receberá uma aposentadoria menor. Com base nessa lambuja estatística, a Previdência Social refez os cálculos e decretou que, para os futuros aposentados, será necessário trabalhar mais para manter os mesmos benefícios que seriam concedidos antes do novo cálculo. É o tal do “fator”. Então voltamos com a pergunta anterior: você votou em algum candidato que tenha tocado neste assunto no palanque?

É o tal do cheque em branco que passamos aos eleitos. O presidente Lula tem nas mãos o maior cheque em branco já passado na história da República. Ou você o elegeu sabendo perfeitamente que a atual política econômica seria clonada a partir de um fio de cabelo do Pedro Malan? Contra ou a favor do Palocci, o fato é que a maioria não votou nas teses do Palocci. Lula nunca revelou no palanque que, no fundo, no fundo, era fã de carteirinha do Pedro Malan. Quem diria?

Com este fabuloso cheque em branco nas mãos, não temos como reclamar. Assinamos embaixo e Lula o está descontando da forma e do jeito que mais aprouver a ele, José Dirceu e seus companheiros amestrados. Abençoados sejam, e que Luiz Inácio Lula da Silva faça bom proveito deste cheque em branco, nominal.

Que o nosso presidente não faça como o russo Alexis Eisner, que recebeu um cheque em branco do escritor Ernest Hemingway. Foi quase no fim da Guerra Civil Espanhola, quando tudo já parecia perdido para os republicanos adversários do generalíssimo Franco. Alexis Eisner vinha caminhando por uma rua de Valência. Hemingway vinha em direção contrária. Se abraçaram. O escritor americano fez um comentário sobre as batalhas: “A morte está mal-organizada na guerra”. Alexis perguntou sobre os projetos futuros: “Regresso para a América, mas não sei se voltarei à Espanha”, comentou o autor de “Adeus às Armas”, completando: “Vem me ver. Estou casado com uma milionária. Tenho uma casa na Flórida”. Em seguida, Hemingway tirou o talão de cheque do bolso e estendeu um a Alexis Eisner. Colocou a data e assinou, mas não pôs nenhuma quantia. Era um cheque em branco dirigido ao Banco Francês de Paris. No verso, Ernest colocou seu endereço na Flórida, guardou o talão de cheques no bolso e se despediu: “Adeus, amigo, boa sorte!”. Melhor seria para Alexis Eisner se não tivesse recebido este cheque em branco, que nunca utilizou, embora tenha precisado de dinheiro. Alexis regressou à União Soviética em janeiro de 1940. Quatro meses depois, entrou na lista negra de Stalin e seus generais. Sem nenhum motivo. Acharam o motivo quando a casa de Alexis Eisner foi revistada e a polícia de Beria, o lugar-tenente de Stalin, encontrou o cheque em branco assinado por Ernest Hemingway. Um cheque em branco assinado por um estrangeiro capitalista e ainda não descontado.

Mandaram Alexis Eisner para a Sibéria.

Até quarta-feira, Nireu Teixeira: aquela saborosa aventura gastronômica no nordeste já está no forno.

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