O catarinauta (3)

A incrível história do "astronauta de Maratá" repercutiu internacionalmente. A Nasa, através da UPI, distribuiu em Washington uma lacônica nota desmentindo oficialmente que o astronautra Charles Conrad tivesse nascido no Brasil.

A cidade de Porto União estava nervosa e as informações iam se desencontrando, quando o Jornal da Tarde, de São Paulo, levantou a principal questão: "Para Charles Con-rad se chamar "Junior", seu pai teria que também se chamar Charles Conrad. Mas se chamava Joseph".

José Rehme, irmão da mãe do astronauta, tratou de explicar. Dizia que quando o menino nasceu, seu pai o chamava de Josef. Logo depois, com menos de um ano, foi levado pelo pai para a Pensilvânia. De lá, a família só voltou depois de muitos anos, com o menino já se chamando Charles. "Minha mãe até estranhou – dizia José Rehme. Ela perguntou se o menino havia morrido e se era outro filho." Mas Anna – a mãe de Charles – explicou que lá eles tiveram que se casar novamente e registrar os filhos por uma segunda vez e, por isso, mudaram o nome" – registrou o Jornal da Tarde.

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No dia primeiro de dezembro de 1969, a história parecia ter ganho, enfim, um ponto final. Falando à rádio Voz da América, a senhora Francis Sargent, a mãe do astronauta Charles Conrad Jr., negou que o comandante da Apollo 12 fosse brasileiro. E acentuou que o seu filho nasceu em hospital de Filadélfia, Estado da Pensilvânia, a 2 de junho de 1930. Na mesma cidade passou a infância e fez os primeiros estudos. As demais informações prestadas por Francis Sargent eram as mesmas encontradas na biografia oficial do astronauta. A senhora Sargent, que estava divorciada do marido e pai de Charles Conrad Jr., revelou também que o apelido em família era Pete.

O jornal Washington Post deu a notícia com destaque e a confusão em torno do caso do "astronauta de Maratá" complicou-se ainda mais, quando os repórteres conseguiram falar com o velho Joseph Conrad, em Tarpon Springs, Flórida, no telefone 9379430.

A conversa serviu para aumentar ainda mais o desacordo. Joseph Conrad negou que tivesse parentes em Santa Catarina e nem mesmo conhecia o Brasil. Porém, o mais estranho é que a reportagem chegou àquele telefone e endereço através de cartas escritas por Joseph Conrad à família Rehme em Maratá.

O diálogo da reportagem com Joseph Conrad.

– É o sr. Joseph Conrad?

– Sim…

– Tem parentes em Santa Catarina, no Brasil?

– Não, não tenho. Aliás, nem conheço o Brasil, nunca estive nesse país.

– Em Santa Catarina existem cartas enviadas por Joseph Conrad, com o seu endereço: Tarpon Springs, Flórida, tel. 9379430.

– Isso confere, só que desconheço tudo isso.

– Segundo o pessoal de Santa Catarina, o senhor nasceu na Alemanha, veio para o Brasil e depois naturalizou-se americano.

– Não. Eu sou norte-americano de nascimento. Nasci em Ohio, nunca estive na Alemanha.

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Com a nota oficial da Nasa e a entrevista da senhora Francis Sargent à rádio Voz da América, não havia mais como sustentar a história do "astronauta de Maratá". Os argumentos da famáilia Rehme, por mais verossímeis, escorreram Rio Iguaçu abaixo.

A imprensa abandonou Porto União e, no dia 3 de dezembro de 1969, o jornal O Estado do Paraná encerrou sua série de reportagens com a manchete: "Quem tem medo da verdade?".

No texto inconformado do repórter Moraes Neto, uma última pergunta: "Afinal, Charles Conrad Jr. nasceu ou não no Brasil? Com quem está a verdade: com a família Rehme, que provou com documentação ter parentes em Tarpon Springs, na Flórida, ou com os parentes que agora negam até mesmo conhecer o nosso País?".

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O ex-astronauta norte-americano Charles Conrad Jr. morreu em conseqüência de graves ferimentos sofridos em um acidente de moto na Califórnia em 8 de julho de 1999. E a história do "astronauta de Maratá" virou lenda nas margens do Iguaçu.

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