Um furacão geneticamente modificado, essa foi a causa da tragédia climática com ventos que atingiram 150 km/h e causaram destruição na costa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Um fenômeno que, entre mortos e feridos, deixou a polêmica no ar: seria um furacão, um ciclone extratropical, um tufão, um tornado, um vendaval ou um vento sul anabolizado? Ninguém sabe dizer ao certo.
E se ninguém sabe, cabe aos poetas e humoristas explicar a história: ciclone extratropical é típico do Atlântico Sul, uma tempestade produzida por massas de ar frio que se desloca em movimentos circulares e em velocidades crescentes. Nesta época do ano são comuns sobre a costa brasileira. Tufão é o genérico de ciclone tropical, que costuma acontecer no Pacífico, também chamado de ciclone no Oceano Índico. Tornado é a bomba atômica de São Pedro, a mais destrutiva de todas as tempestades na escala de classificação dos fenômenos atmosféricos. Pode acontecer em qualquer parte do mundo, mas, por sua grandeza e potência, os direitos autorais são de propriedade dos Estados Unidos. Coisa de primeiríssimo mundo, atinge até 490 km/h de velocidade no centro do cone. Produz fortes redemoinhos e grandes bilheterias no cinema.
Um furacão de boa cepa nunca ocorreu no Brasil. Mas, nós paranaenses, o conhecemos muito bem: fez oitenta anos na sexta-feira passada, é rubro-negro e tem o nome científico de clubyus atletycuns paranaensis.
O furacão Catarina é um fenômeno que começou a ser observado na sexta-feira passada, no Oceano Atlântico, quando estava a 480 quilômetros do litoral, e só não foi levado a sério pelo governo federal, que até deu folga para a Secretaria Nacional de Defesa Civil. Ele se formou a partir de uma frente fria comum que cruzou o mar no início da semana, seguindo na direção da Bahia. Desistiu, naquelas paragens a concorrência com outros fenômenos é grande. Segundo a Nasa e a CIA, que monitorava a formação desde a ocorrência do tufão Waldomiro Diniz, num primeiro momento o fenômeno não despertou maior preocupação, pois, no Brasil, todos os fenômenos morrem na praia. Com exceção do Ronaldinho. Baseado nesse padrão, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) previa, na pior das hipóteses, um vento sul anabolizado, recomendando um campeonato de surfe nas praias de Laguna, Guarda do Embaú, Imbituba, Garopaba e Torres.
Na noite de sexta-feira passada, técnicos da Nasa apontaram o fenômeno avançando em direção ao litoral do Paraná, rumando para o trecho entre a Ilha do Mel e Guaratuba, alertando que sua plenitude atingiria o Porto de Paranaguá.
Precavidas, autoridades competentes do Paraná solicitaram mais detalhes sobre o fenômeno: seria um furacão, um ciclone extratropical, um tufão, um tornado, um vendaval ou um vento sul anabolizado? A Defesa Civil ficou sem respostas, pois o Inpe não só ignorava do que se tratava, como também desconhecia o tamanho da encrenca.
Quando o relatório caiu nas mãos dos técnicos do Porto de Paranaguá, o parecer foi taxativo: “Se ninguém sabe do que se trata e ninguém sabe se pode causar danos ou efeitos colaterais, não resta a menor dúvida: o Catarina é transgênico. Em Paranaguá não entra!”
Sábado pela manhã o Catarina transgênico foi obrigado a mudar de rumo. Cruzou o Porto de São Francisco e foi descarregar no sul de Santa Catarina.
Essa é a história. E quem quiser que conte outra.
Até sexta-feira, Deonísio da Silva; e também concordo: se é para homenagear uma mulher, devia ser Vera Fischer. À semelhança de nossa musa e deusa, o furacão não deixou ninguém indiferente.