O burro de São Martinho

Lula é burro, Serra uma anta. Assim ficou dividido o eleitorado no segundo turno. Abertas as urnas, a voz do povo ajuizou: para 38% dos brasileiros, Lula é burro. Para os 62% restantes, Serra é uma perfeita anta.

Véspera de eleição, a coluna publicou um texto do escritor Deonísio da Silva, onde ele alertava: “Tremenda injustiça perpetramos contra os animais aos utilizá-los para ofender nossos semelhantes. A anta, o cachorro, o gambá, a vaca ? e seu marido, o boi ? além dos muares, todos deveriam organizar-se, exigindo reparação das calúnias”.

Para a parcela minoritária nas urnas e que ainda suspeita ou insiste que Lula é burro, um outro alerta para não utilizar os animais para ofender nossos semelhantes: lembrem-se da história do burro de São Martinho.

Uma história que vem sendo contada desde 345 d.C. e relembrada agora no livro Vinho & Guerra, a saborosa obra do casal de jornalistas americanos Don e Petie Kladstrup, que se encontra na lista dos mais vendidos e na vitrine das boas casas do ramo. Resumindo a orelha, Vinho & Guerra nos conta a saga dos produtores franceses de vinho, durante a II Guerra, para ocultar e trapacear os nazistas, quando o exército alemão iniciou uma campanha para pilhar um dos símbolos franceses mais tradicionais e prestigiados: seu vinho. Uma contra-ofensiva que envolveu desde o proprietário do famoso restaurante La Tour d? Argent – que ergueu uma parede para ocultar suas vinte mil garrafas mais preciosas – até soldados anônimos que, finda a guerra, recuperaram o vinho roubado que ia diretamente para o bunker de Hitler. Na página 23 de Vinho & Guerra, eis a história do burro de São Martinho:

“O vinho era feito da maneira como avós e bisavós o haviam feito. Não havendo especialistas a que recorrer, cada um seguia as tradições que conhecia e com que crescera. (…) O plantio, a colheita e a poda eram feitos de acordo com as fases da lua. Pessoas mais velhas lembravam com freqüência aos mais jovens que os méritos da poda foram descobertos quando o burro de São Martinho se soltou nos vinhedos.

“Isso aconteceu quando São Martinho, cavalgando um burro, saiu para inspecionar alguns vinhedos que pertenciam ao seu mosteiro, no vale do Loire. Ele era um amante do vinho e instruía a todos com relação às práticas mais recentes da vinicultura.

“São Martinho amarrou seu burro junto às videiras e foi tratar do serviço. Ficou ausente por várias horas. Quando voltou, descobriu horrorizado que o burro tinha mascado as videiras e que algumas tinham sido mastigadas até o tronco.

“No ano seguinte, contudo, os monges tiveram a surpresa de ver que exatamente aquelas videiras tinham voltado a crescer com mais força e produzido as melhores uvas. Os monges aprenderam bem a lição e, século após século, a poda tornou-se parte da rotina de todo o vinicultor”.

Para os minoritários que ainda insistem em qualificar o presidente eleito de burro, por falta de um currículo escolar qualificado, lembrem-se do burro de São Martinho. Quem sabe o segredo para o Brasil voltar a crescer com mais força e produzir com mais generosidade não seria uma simples e boa poda nos centenários galhos da Nação? Coisa que Lula, humildemente, pode fazer.

Se ainda assim, o distinto continua pessimista quanto ao futuro, paciência. Ajoelhe-se, faça o sinal da cruz e reze para São Martinho, o padroeiro dos burros que deram certo.

Até domingo, que sexta-feira os filhos de Deus, aqui da redação, também enforcam.

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