Sinhá Marica morreu duas vezes. Nascida numa primavera de 1830 – depois da família ganhar um pedaço de terra em Campo Largo da Piedade -, morreu pela segunda vez em agosto de 1932, mês de cachorro louco. Com mais de 100 anos, portanto.

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Pela vez primeira morreu em fevereiro de 1854, a caminho dos folguedos de Carnaval em Curitiba; que o jornal Dezenove de Dezembro já registrava: ?Nunca vimos tanta frieza nos folguedos carnavalescos como este ano, concorrendo muito para isso o mau tempo que tivemos nos três dias. Poucas arreinações, algumas raras e desengraçadas figuras percorreram as ruas unicamente?.

No lombo do burro, a cabocla tinha saído de Campo Largo no sábado bem cedo, para chegar de noitinha e ainda se enfeitar na casa de uma freguesa no caminho do Mato Grosso – por onde hoje sobe a Avenida Batel.

Não passou da malfadada ponte do Rio Barigüi. Um bando de cachorros loucos cercou a montaria de Sinhá Marica e de supetão o chefe da malta desapeou a carnavalesca.

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Eram os capangas do coronel Quincão, e o próprio Joaquim do Feliciano Lucena surgiu da capoeira com chicote na mão.

– Não há de ser uma vagabunda feiticeira de Campo Largo que há de levar o meu único herdeiro à perdição! Volta o burro pra Campo Largo e não me bota o pé pro lado de cá da ponte pro resto de tua vida. Dia e noite, noite e dia vai ficar pistoleiro nessa cabeceira: se passar, leva chumbo!

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?CASAMENTO – Casou-se no dia 10 do corrente o Ilmo. Sr. Joaquim do Feliciano Lucena Filho com a Exma. Sra. D. Ingrid von Meien, filha do Exmo. Sr. Fritz von Meien. Foram padrinhos os Ilmo. Srs. Dr. José Eustáquio de Honório Miranda e o capitão Hermenegildo de Sotomaior e Carvalhaes. O ato celebrou-se na casa do coronel Joaquim do Feliciano Lucena, em oratório particular?.

Coronel Quincão desejava ao herdeiro uma noiva de linhagem européia, aos netos maior qualificação racial, e a notícia do casamento foi publicada.

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 – Volto pro Campo Largo da Piedade, mas Deus não há de ter piedade de vossa existência. Volto pro meu buraco, mas pro buraco antes vai vosmicê. Os raios que o partam, coronel!

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Meses depois, um anúncio do jornal Dezenove de Dezembro provocou grande falatório no Largo da Matriz: ?A abaixo assinada previne ao público que, em conseqüência do estado de demência em que se acha seu marido Joaquim do Feliciano Lucena, não se responsabiliza pelos negócios que porventura se fizerem com o mesmo; e para que ninguém se chame a ignorância faz a presente declaração. – 21 de novembro de 1854 – Engracia do Feliciano Lucena?.

No ano seguinte, em agosto de 1855, a sexta-feira foi de cachorro louco.

Os céus do Barigüi se encresparam, o dia escureceu no Bigorrilho e um cavernoso rugido desceu do pretume das nuvens. Caíram três raios na mansão da família Feliciano Lucena. O primeiro deles rachou ao meio um troncudo pinheiro junto ao portão. O segundo caiu sobre a cozinha e o madeirame principiou um incêndio devastador.

O terceiro raio foi pavoroso: varou por uma janela e saiu por outra, arrastando consigo todos que estavam na mesa da sala de jantar. Só ficou em pé uma pesada ?etagère? – console com prateleiras. Os cacos da fina porcelana Companhia das Índias restaram negros.

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Sinhá Marica nunca mais atravessou a ponte do Barigüi. Passou o restante de sua anosa existência em Campo Largo da Piedade, reclusa na gruta das quaresmeiras: o buraco da velha. Bebia da água milagrosa das estalactites e comia do que lhe rendiam os poderes da cura e da magia.

De uma paixão desgraçada, assim nasceu a história que os antigos contam. Uma história que pode, como não pode, ser verdade, mas verdade é que quando as nuvens escurecem no Parque Barigüi, vem tempestade da grossa. É o ?buraco da velha? que inunda os bairros, vilas se enchem de lama e a Prefeitura de Curitiba declara calamidade pública.