O buraco da velha (2)

Gente antiga de Curitiba conta que quando as nuvens escurecem no Parque Barigüi, vem tempestade da grossa. É o ?buraco da velha? que inunda os bairros, vilas se enchem de lama e a Prefeitura de Curitiba declara calamidade pública.

Este é o segundo capítulo da origem do ?Buraco da velha?, uma história que pode, como não pode, ser verdade. Maria Delacruz era o nome da velha, nascida em Campo Largo da Piedade, filha de Delário e Júlia Delacruz. Dois filhos de Deus que morreram mordidos de cachorro louco, deixando no mundo Sinhá Marica. Moça de dedo verde, em agosto fazia a sementeira de cravos e no resto do ano seguia o calendário das flores e verduras da estação para vender em Curitiba. Certo dia Sinhá Marica bateu na porta do coronel Quincão, Joaquim do Feliciano Lucena, senhor de serra abaixo e serra acima.

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Quem atendeu a porta errada do destino foi o filho único do coronel Quincão, Joaquim do Feliciano Lucena Filho, o Quinquinha.

Sem palavras, o jovem Quinquinha comprou toda mercadoria de Sinhá Marica: pêssegos de soltar caroço, jabuticabas das graúdas, as flores daquela primavera. Pagou os mirréis e a moça agradeceu:

– Deus o guarde!

O que Deus guardou foi uma maldita paixão que nasceu ali; e que haveria de cruzar em mão dupla, por muitas e muitas vezes, a ponte do Rio Barigüi.

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Ninguém nasce vidente, curandeiro ou milagreiro. Sucedeu com Sinhá Marica que a triste sina dos pais também lhe coube: certo inverno, ela foi igualmente mordida de cachorro louco na ponte do Rio Barigüi. Naquela época, tanto quanto hoje, Curitiba tinha muito cachorro louco. Socorrida no Campo Largo da Piedade, o garrão do guapeca não deixou marca, mas deixou em Sinhá Marica a fama de vidente, curandeira e milagreira. E eis porque: ela sempre dizia que um dia também seria mordida de cachorro louco na ponte do Rio Barigüi, por milagre não morreria, e seria curada com a água cristalina que pingava da estalactite na caverna de casa.

Se baba de cachorro mata, essa Sinhá Marica é muito poderosa, – dizia o povo de Campo Largo. Pois de fato, naquela época corria em Curitiba um mistério que passou tempo sem explicação: homem ou mulher, todos os colonos de Campo Largo que vinham vender seus produtos na capital da província, vestiam sua roupas do avesso. Era uma simpatia. Pregava Sinhá Marica que o avesso na roupa dava sorte na venda.

Para alcançar uma graça: durante a lua crescente ou cheia, suba num ponto mais elevado do que a sua cabeça e acenda três velas brancas de três dias. As velas devem estar num pires branco com água e açúcar.

Para ganhar dinheiro: na fase da lua crescente, colha a maior espiga de milho madura que encontrar. Vire a palha sem quebrar e amarre com três fitas de cetim. Uma verde, uma amarela e outra dourada. Pendure a espiga na porta de entrada da casa, do lado de dentro.

Os colonos faziam fila no caminho das quaresmeiras. Sinhá Marica curava os crentes na pequena gruta forrada de estalactites que pingavam águas milagrosas; e previa o futuro. Num pano branco bem molhado, espalhava erva-mate e torcia. Na mancha do chimarrão, o futuro se desenhava.

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Como Deus guardou, o romance de Sinhá Marica com o filho do coronel Quincão se desenhou mal. Quando Quinquinha não ia ao leito da feiticeira, era Sinhá Marica que se deitava à sombra de um ipê-roxo no mato do Barigüi.

Para limpar a casa de más influências: um balde de água limpa, um pano branco limpo e virgem, meio quilo de sal grosso, um incenso de cânfora 1 vela branca simples, um copo de vidro com água, três rosas brancas.

O coronel Joaquim do Feliciano Lucena não era homem de acreditar em simpatias. Como veremos no domingo, tinha mais fé nos seus capangas.

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