Em O Paraná e a Caricatura, o professor Newton Carneiro revelou uma informação inédita para a história do desenho de humor no Brasil: podemos nos orgulhar, Curitiba foi o berço do primeiro caricaturista brasileiro. O precursor da arte da caricatura no Brasil chamava-se João Pedro, o Mulato.
No prefácio do livro, editado em 1975, o caricaturista e historiador Alvarus se diz surpreso com a constatação, mas Newton Carneiro prova e ilustra a obra com aquarelas de João Pedro, o Mulato, adquiridas em um antiquário de Lisboa – a mais importante delas é datada de 1817, com a legenda ?O Sargento Mór da Milícia de Paranaguá dando despacho e andamento aos feitos atrasados?. Na assinatura, as iniciais J.P.
Podemos nos ufanar, para usar uma palavra daqueles tempos de João Pedro. A história e a tradição do Paraná na caricatura e no humor brasileiro vêm de berço. Começou com João Pedro, passou por Emílio de Menezes, teve a glória de ver nascer os traços e troças de Alceu Chichorro, formou o talento múltiplo de Juarez Machado, é a terra do parnanguara Miran, um dos maiores artistas gráficos do mundo, de Itararé os paranaenses receberam Solda, e agora vamos conhecer os primeiros passos de Rafa Camargo.
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| Rafa Camargo, traço de Pato Branco. |
Menino de Pato Branco, Rafa Camargo estreou nas páginas da Tribuna do Paraná, onde vai substituir o consagrado cartunista Tiago Recchia. É uma tarefa difícil ocupar aquele espaço, mas essa gente de Pato Branco não mede espaços para desbravar, é valente de berço. E aqui nesta Editora O Estado do Paraná ele está ganhando um novo berço, o berço de alguns dos maiores nomes da história da caricatura do Paraná, depois de Alceu Chichorro.
Chico Fumaça, o personagem irreverente de Chichorro, foi um marco, no jornal O Dia. Depois dele, um grande vazio se fez, quando Chichorro aposentou o lápis e se retirou para o pequeno apartamento de sempre solteiro, no início da Rua Mateus Leme. Naquele segundo andar, foi onde conheci o mestre, entre paredes de livros, a geladeira repleta de Fanta laranja e, de resto, o mínimo necessário para fechar uma vida que hoje está guardada com honras na Casa da Memória de Curitiba.
Alceu Chichorro se foi em 30 de abril de 1977. Nos deixou uma extensa obra, entre desenhos e livros – que era também o grande cronista da Curitiba risonha e franca – e, no espaço da charge editorial, um vazio significativo.
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O branco era significativo, aquele vazio era o silêncio da imprensa nos anos de chumbo, espaço que só veio a ser preenchido em 1974, quando este O Estado do Paraná e a Tribuna do Paraná retomaram a tradição e abriram esta nova página para o humor.
Por isso me ufano. Nos últimos 30 anos, esta Editora O Estado do Paraná só fez alargar o espaço aberto por João Pedro, o Mulato, nos tempos de Getúlio ocupado por Alceu Chichorro e, mesmo com a ditadura, guardado com garra por novos pândegos da troça e do traço: Francisco Camargo, o Pancho, foi o abre-alas, Moacir Calesco, Ivan Anzuategui, César Marquesini, Chá, Luiz Metralha, Ruy Werneck, Taco-X, Edu, Marcelo Martins, Caco Rettamozo, Damasceno, Flávio Colin, que Deus o tenha na ponta do lápis, Marcos Jacobsen, Denise Roman, Miran, que em alguns momentos nos deu a honra, e Tiago Recchia, que nos concedeu sua graça.
Ainda às suas ordens, nesta Redação que sempre revelou talentos, Claudio Seto, o mestre dos quadrinhos brasileiros, Castro Alves, exemplo que vem de longe, Luiz Antônio Solda, que por onde passa a inteligência tira o chapéu, e este escriba, que vem através desta dar boas-vindas a Rafa Camargo, o menino de Pato Branco

