De Hollywood para Curitiba, aqui a história se repete. Não com todo charme e milhões de dólares do personagem de Leonardo DiCaprio, mas num carioca de 30 anos que se dizia com 28, aparentava 40 e se identificava como piloto de uma companhia aérea.
A trama de Prenda-me se for capaz, com Leonardo DiCaprio e Tom Hanks, podia ser considerada ficção, não fosse o fato de se basear numa história real. O filme é a autobiografia de Frank W. Abagnale, um adolescente que fugiu de casa antes de completar o ensino médio, conseguiu se passar por médico, advogado, professor universitário e por um elegante piloto de avião. É a história de vida e golpes de um jovem trapaceiro, cujo poder para tudo isso era a manipulação e o bom papo. Tal e qual DiCaprio, o aviador de Curitiba ganhava a confiança dos homens e encantava as mulheres.
? Muito prazer, comandante McCoy! ? era como se apresentava o sedutor, no Bar Ao Distinto Cavalheiro, nos últimos meses do ano passado.
O elegante comandante adentrava o bar, com seu perfeito e imaculado uniforme de aeronauta, sempre apressado e a caminho do aeroporto:
? Lúcia, minha querida, um chopinho rápido que estou embarcando para Roma!
O chopinho rápido nem sempre era tão rápido. Bebia outros dois para relatar o roteiro da viagem, com escalas em Milão, retornando por Paris e Nova York. Antes de pagar a conta, atendia ao celular.
? Pois não, comandante McCoy… Minha querida!!! Não… não esqueci, não! O casaco na Via Condotti, a bolsa da Via Marguta.
Pedia um táxi e um último chope, que arrematava súbito, e arrivederci! que esse mundo sem porteira o esperava.
Dias depois, soava o telefone do Ao Distinto Cavalheiro:
? Lúcia, é o comandante McCoy. Estou em Roma! – carregando no RRRRoma – Estou jantando na trattoria Vecchia Roma, na via Leonina, respirando esta atmosfera eterna das sete colinas. Acabei de pedir um espetacular rigatoni con la pajata. Mas devo reconhecer, Lúcia… saudades da tua feijoada dos sábados. Passe um abraço aos amigos e avise que liguei de RRRoma. Ciao, bella!
Era o enredo do comandante McCoy: o aviador interpretava um bom partido que caiu do céu. Ganhava a confiança das pessoas, principalmente das mulheres, e com a conversa de que era abonado, seduzia suas vítimas. Preferencialmente louras, ou morenas com boa conta bancária. Na primeira investida, ?trazia? espontaneamente um perfuminho de Paris. Depois, já bem íntimo, pedia dinheiro para toda a família da namorada para "comprar aparelhos eletrônicos mais em conta".
O aeronauta era ilustrado e pontual. Na ligação seguinte, se anunciava de Paris:
? Lúcia, é o comandante McCoy. Estou em Paris! – Parissshhh, alongava – Num bistrozinho! Tenho pouco tempo, embarco para Nova York. Estou fazendo um lanchinho rápido, croque monsieur com um demi, que é chopinho em francês. Devo reconhecer, Lúcia, saudades do teu espetinho acebolado, com o nosso imbatível demi da Brahma. Passe um abraço aos amigos e avise que liguei de Parissshhh. Ciao, bella!
"Ele pensava que era o Leonardo DiCaprio. Mas na verdade era dez mil vezes menos inteligente", disse o delegado Almeida Júnior à imprensa, depois de prender o aviador dentro da própria delegacia de Estelionato, com o cachorrinho poodle de uma namorada nos braços, quando se apresentou como policial militar em busca de porte de arma e acabou preso.
Quando retornava dos périplos internacionais, aparentava cansaço, uniforme amarfanhado e, já à beira do folclore, havia quem apostasse:
? Dois chopes como o comandante McCoy chegou de Lisboa! – dizia alguém da mesa 3.
? Aposto outros dois como ele chegou de Nova York ? replicava outro da mesa 1.
Nem bem botava o pé na porta, McCoy pedia o de sempre:
? Lúcia, dois chopinhos que um é pouco!
? Comandante McCoy – inquiria Lúcia -, de onde você está chegando?
– De Lisboa, Lúcia!
– Então dois chopes para o comandante e outros dois na mesa 3, no capricho!
Esse comandante McCoy era um avião.