No século passado o deputado Rafael Greca me incumbiu de uma tarefa das mais honrosas, porém temerária: levar o escritor Wilson Martins e sua esposa para um jantar que seria realizado na chácara São Rafael das Laranjeiras, em Pinhais. Tarefa honrosa, porque não conhecia pessoalmente o ilustre casal e, temerária porque, não sabiam eles, era eu então um motorista recém-habilitado. Com o agravante de um sábado de inverno tenebroso, de chuva fina intermitente, neblina grossa de cortar com faca. O carro era um fusquinha zero. Da Alameda Prudente de Moraes, fazendo escala no Juvevê para apanhar os convidados especiais de Rafael Greca, atravessei a cidade como um equilibrista na corda bamba. Cheguei ao destino com o coração na mão, imaginando um possível acidente fatal e a manchete nos jornais de segunda-feira:

– Cartunista mata maior crítico literário brasileiro!

Alguns anos antes tinha passado por outra situação semelhante. Ou quase semelhante, bem menos periclitante. Por ocasião de um festival de humor que se realizava aqui em Curitiba, o então presidente da Fundação Cultural, Sérgio Mercer, me incumbiu de uma tarefa também das mais honrosas: apresentar a noite curitibana ao cartunista Henfil. Também era inverno, a neblina cobria as ruas, não chovia, quase chovia. Era a Curitiba que conhecemos de sempre. Cheguei ao Hotel Mabu, na Praça Santos Andrade, com o roteiro traçado: de táxi, de bar em bar, findando a noite com um jantar no Bar Palácio. Henfil não aceitou o táxi:

– Uma cidade se conhece a pé!

E assim fomos. Quando cruzamos a primeira esquina, um carro quase nos atropela. Aí baixou a paranóia, um sintoma típico daqueles anos 70. Me ocorreu que estava acompanhando um cartunista hemofílico. Qualquer tropeção na calçada, um atropelamento, quase tragédia. Inaugurei aí minhas travessias da cidade como um equilibrista na corda bamba. Cheguei à primeira estação do calvário com o coração na mão, imaginando um possível acidente e a manchete dos jornais de segunda-feira:

– Cartunista menor mata maior cartunista brasileiro.

Tirante o táxi, a noite curitibana de Henfil até que foi animada. Passamos primeiro no bar Kappele, onde o astro do Pasquim foi solenemente ignorado. Ou melhor, todos fizeram de conta que era mais um intelectual barbudo a encostar o cotovelo no movimentado balcão da Mara. Já no Bebedouro, antológico bar que existia no Largo da Ordem, Henfil teve uma recepção efusiva. A corte do Barão de Tibagi, com seu fiel escudeiro Ernani Buchmann, o recebeu com trilha sonora de Sérgio Mercer, interpretada pelo próprio Barão. Sim, terminamos a noite no Bar Palácio, como de bom tom.

Quinta-feira passada Henfil teria completado 60 anos de vida, e que vida! Não posso dizer que fui amigo de Henfil. Fui, isto sim, seu fã. Só não fui seu aluno porque nunca tive a coragem, e o talento, de desenhar como ele desenhava; assim como quem escreve, uma caligrafia. Ainda no final dos anos 70, invertemos os papéis: Henfil foi meu cicerone na noite paulistana. Ele me recebeu em seu amplo apartamento (nos Jardins, se não me falha a memória), com uma imensa sala acarpetada, sem nenhum móvel (descasado recente, também recentemente tinha se instalado na capital paulista), com apenas uma prancheta junto aos janelões envidraçados. Ali onde traçava o mais ferino humor brasileiro. De resto, o apartamento era uma república de cartunistas. Naqueles dias abrigava o gaúcho Edgar Vasquez e o conterrâneo mineiro Nílson.

Junto com Edgar Vasquez, não conheci a São Paulo de Henfil a pé. Ele nos apresentou a paulicéia desvairada a bordo de uma Belina branca. Nos apresentou também Elis Regina, então preparando uma temporada paulista. Ela interrompeu o ensaio para recepcionar festivamente o pai dos Fradinhos. Um doce a baixinha, manchou de beijos o conterrâneo Vasquez; a mim restou um abraço apertado e uma marca de batom na testa. Depois nos dedicou uma canção: “O bêbado e a equilibrista”, a música do irmão do Henfil.

Até quarta-feira; e saudades, Henfil!

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