Nós precisamos do Bortolotto

O dramaturgo Mário Bortolotto era uma vez um menino de Londrina que pegou o atalho mais próximo e foi brilhar em São Paulo, nas margens do Ipiranga e à margem do conformismo.

Não fosse Bortolotto aqui nascido, seria adotado pelo casal Vera e Luiz Antônio Solda. Com direito a um bom abrigo no bairro do Bacacheri, roupa lavada, café na garrafa térmica e uma caixa de lápis, para botar as cores do cartunista no texto em preto e branco do escritor. Pois com Bortolotto é tudo preto no branco. O colorido ele reserva para a imaginação de quem está com o papel na mão.

Muita cor e pouco preto no branco, os males da imprensa brasileira são. Na semana, o jornalista Thiago Ney, da Folha de S. Paulo, se lambuzou nas tintas de uma crítica sobre o novo disco de Bob Dylan – ?Quem precisa de Bob Dylan?? -, e da resenha restou um borrão para ficar nos anais das bobagens jamais escritas.

Mário Bortolotto não deixou passar a lambança em branco, reproduziu o texto no blog (http://atirenodramaturgo.zip.net):

?Bob Dylan acaba de lançar mais um disco. A imprensa britânica ficou de joelhos. ?Esplendoroso? e ?genial? foram alguns dos adjetivos nas páginas e páginas dedicadas a analisar Modern Times. (…) Ok, Bob Dylan é lenda, e ?Modern Times? está longe de ser ruim, mas… Será que o mundo precisa tanto assim de um novo disco do Bob Dylan? (…). O que eu sei é que sempre precisamos de bandas como Automatic e Be Your Own Pet. Bandas jovens que fazem música para jovens.?

Preto no branco, Mário Bortolotto fez os devidos traços corretivos:

?Fico apenas pensando o que leva um crítico de um conceituado jornal a escrever algo assim. Acho bastante normal o cara não gostar de Bob Dylan (…), mas fico sinceramente pensando o que leva um sujeito a escrever algo assim. Para louvar e credenciar o ?novo? não é preciso necessariamente desprezar o ?velho?. Exemplo: não sou fã de Shakespeare. Nunca fui. Mas se Shakespeare estivesse vivo e escrevesse um novo texto, seria o mesmo se eu dissesse: ?Quem é que precisa de Shakespeare??

Por outro lado, acho que é até compreensível. O crítico deve ser jovem e Dylan não deve tocar nos clubes noturnos que ele deve freqüentar e não vai servir para embalar nenhuma festa com os amigos ?transgressores e muito modernos? que o crítico deve ter. Eu sou só um velho que acha Bob Dylan um cara fundamental e que ainda não ouvi a banda ?Be Your Own Pet? que segundo o crítico, é uma banda ?jovem que faz música para jovens?. Eu sou só um velho que ainda se emociona ao ouvir aquela voz fanhosa cantando algo novo. Então tá respondido, Thiago. Eu preciso de Bob Dylan?.

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Quem precisa de um novo filme de Francis Ford Coppola?

Depois de muito tempo perdido com o projeto de refilmagem do clássico de Fritz Lang Metropolis – algumas das cenas seriam inspiradas no planejamento urbano de Curitiba; e aqui o cineasta passou uma pequena temporada tomando lições com Jaime Lerner -, o pai da Sofia Coppola resolveu se reciclar e seguir o exemplo da filhota, que prefere tudo do bom e barato.

Com uma idéia na cabeça e um orçamento de US$ 5 milhões em baixo do braço, Coppola está finalizando na Romênia a montagem de Youth without youth (Juventude sem juventude), seu primeiro longa depois de 10 anos produzindo vinhos na Califórnia.

Escrevendo sobre sua obra para um blog, Coppola deu um conselho aos jovens. ?Construam algo a partir do que fizeram as pessoas que vieram antes de vocês. Elas viveram para que vocês possam fazer uso da experiência, e os que virão depois de vocês farão uso da sua experiência. Isso é imortalidade.?

Bortolotto

Mário Bortolotto, precisamos de você em Curitiba para trocar umas e outras experiências etílicas. Inclusive no que diz respeito ao cafezinho da garrafa térmica do Solda.

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